Uma corrente do bem, para além do dever moral

Quando adolescente, estudei em um colégio interno em Lages (SC). Meu pai, um pequeno madeireiro, foi à falência e eu teria de abandonar os estudos por não poder mais pagar a mensalidade. Um de meus professores – um padre depois alçado a bispo – obteve de um casal católico alemão a ajuda necessária para um ano e meio de estudo, o suficiente para que eu concluísse o então primeiro grau (atualmente Ensino Fundamental). Cerca de uma década depois, já estabilizado profissionalmente, voltei àquela instituição de ensino com a disposição de ressarcir aquele gesto magnânimo, não ao casal (que preferiu se manter no anonimato), mas ao próprio educandário, para que igualmente beneficiasse outros estudantes em dificuldades.

Ao lhe entregar minha doação, o mesmo professor me deu uma das mais importantes lições de minha vida: “nós aqui – disse o padre – temos as nossas dificuldades, mas somos autossuficientes. Você, como proprietário de escola em Curitiba, pode ajudar muitos estudantes que precisam”. E este foi um compromisso que de fato assumi, concedendo meias bolsas ou integrais a centenas de alunos. E sempre tive o zelo de chamar cada beneficiado com a recomendação de que toda a gratidão deveria ser concedida não a mim, mas às pessoas que vierem a dele(a) necessitar de ajuda.

Na sua sabedoria, este professor me ensinou – e assim procurei disseminar – que ser solidário é sim um dever moral, mas pode ir muito além disso ao se tornar uma corrente do bem. E isso só é possível quando temos com o nosso próximo a mesma empatia que experimentamos daqueles que nos estenderam a mão nos momentos de necessidade, dentro daquilo que nos é possível fazer. Se não somos proficientes de grandes obras que impactem uma comunidade, podemos dar a nossa modesta contribuição com aquilo que está ao nosso alcance.

Toda a atividade social de benemerência incorpora para a vida de quem a pratica uma experiência de grande valor. É uma via de mão dupla, pois o retorno está em um sentimento de felicidade genuína e no prazer de ser útil. É uma terapia gratificantea ponto de ser indicada por diversos consultórios como uma forma de organizar o tempo dos pacientes, que, ao se sentirem úteis e solidários, recebem os efeitos da liberação das benfazejas endorfinas. Aqui Leon Tolstói, um dos mais renomados escritores russos, morto em 1910, é pertinente: “A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira”.

Sim, é uma via de mão dupla, pois a de ida leva dignidade, autoestima, bens materiais, alimentos à pessoa ou à comunidade atendida. Certa feita, Madre Tereza de Calcutá distribuía pão, peixe e água à população de um bairro paupérrimo de uma cidade indiana. Um repórter, bem intencionado, se achega e pergunta: em vez de dar o peixe, não seria melhor ensiná-los a pescar? Como sempre obsequiosa, Madre Tereza lhe transmite uma lição de anos de experiência: primeiro, eles precisam se alimentar, neste momento não dá para ensinar a pescar. Ninguém aprende de barriga vazia.

Os gestos de generosidade são sempre nobres, não importa a motivação. Religiosa? Você só leva aquilo que dá. Cívica? Somos um dos países mais desiguais do mundo. Narcisista? Não nos cabe julgar, afinal a ânsia de ser apreciado é da natureza humana e para o beneficiário pouco importa a motivação da ajuda recebida. E se para toda boa ação é da natureza humana esperar reconhecimento, consolemo-nos nas páginas do Evangelho: não foram 10 os leprosos curados? Quantos voltaram para agradecer? Outro dia, li: “Quem tem coragem para fazer o bem, tem que ter sabedoria para suportar a ingratidão”.

O Brasil não é um país pobre, mas sim injusto. A bem da verdade, este país será salvo não apenas pelos governantes, mas pelas ações concretas de cada um de nós. Não podemos ficar indiferentes à cruel realidade de nossas crianças e jovens, carentes não só de alimento, saúde e boas escolas, mas também de esperança. E no  limiar de um novo ano, após os estertores de um ano pandêmico, de perdas e isolamento social, há um renovar de esperanças, sobretudo uma disposição de sermos mais altruístas, com bons propósitos de ressignificar nossas atitudes de amor ao próximo, pois “bondade também se aprende” – como bem ensina a poetisa goiana Cora Coralina.

(*) Jacir J. Venturi é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná, foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, e das universidades UFPR, PUCPR e UP. 

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