Uma história sem fim

*Carlos Huf

Diante dos tempos sombrios que vivemos, a leitura de “A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato”, do sociólogo Jessé Souza, me trouxe à lembrança um episódio que vivi há mais de cinquenta anos, que mostra como são antigos no Brasil os Sérgio Moro da vida.

    OS GIBIS FICARAM COMIGO

                  (Publicado no Correio de Notícias de 01/11/1985)

 

– Lembra do Joaquim? Rapaz, você não faz ideia de onde o encontrei, na

última vez que estive no Rio de Janeiro!

Saía eu do restaurante do SESC, em Curitiba, naqueles tempos de estudante e de dureza que hoje parecem divertidos, quando fui abordado pelo antigo colega de infância no interior, que demonstrava no tom da pergunta uma sincera perplexidade. Parecia prestes a repartir comigo um momento extraordinário, uma experiência que era grande, excitante demais para carregar sozinho.

Claro que eu me lembrava do Joaquim. Quem não se lembraria? Era dessas figuras que lideram sem saber. Em qualquer discussão, permanecia calado, e acabava sempre tendo a última palavra, exatamente porque depois de muito falar, todos olham para aquele que ficou em silêncio. Dava seus palpites com uma serenidade que desarmava qualquer inveja. Sua humildade era daquelas que se impunha a todas as arrogâncias.

É certo que era um pouco mais velho que todos nós. Chegara tarde à escola, por motivos óbvios nos fundões do Brasil. Isso nos ajudava a desculpar-lhe os insistentes primeiros lugares que ostentava meio a contragosto, na escola e nos esportes.

Para mim, era o irmão mais velho que eu não tinha. Ensinava-me a fazer os melhores estilingues,  a jogar o betis e as bolas de gude, a empinar os papagaios.

Gibis, trocávamos às pilhas. Como estes eram terminantemente proibidos lá em casa, ele me ajudava a driblar a vigilância para introduzi-los com segurança no meu quarto, depois de atravessar cercas e mandiocais.

Certo dia fui à sua casa. Casa típica do Norte do Paraná dos anos 50, de tábuas de peroba recém serrada, cheirando forte a alho.  Fiquei traumatizado. Nas quatro minúsculas peças, um fogão de barro, algumas cadeiras, nos quartos os colchões diretamente sobre o assoalho brilhante de limpeza, algumas roupas penduradas em pregos na parede. Só. Minhas pernas tremiam ao pedalar a bicicleta de volta para casa.

Não conheci seus pais. Eles voltavam muito tarde da noite do trabalho nas fazendas adjacentes.

Durante muito tempo, depois disso, não consegui entender o seu sereno bom humor, o sorriso comedido mas constante. Era inacreditável que jamais se irritasse, que não se ofendesse com o desdém de alguns. Não me lembro de tê-lo ouvido levantar a voz.

Mal tínhamos entrado no ginásio, e ele desapareceu, tão sutilmente como surgira, e nunca mais ouvimos falar dele. A última leva de gibis ficou comigo.

Assim, o meu amigo sabia que eu era a pessoa certa para contar a novidade. Encostamo-nos nas pilastras da José Loureiro. De todos nós, o meu interlocutor era o melhor situado na vida, estudava Direito na capital, e anos mais tarde viria a ser juiz de direito no Norte do Paraná. Naquele momento, transbordava de excitação, e continuou:

-Um domingo fui a um clube social com uns amigos, na Zona Sul. Ao nosso lado estacionou um Opel do ano. E na minha frente desceu o motorista, numa beca impecável. Era ele, o Joaquim. Claro, só podia ser o motorista de algum figurão do clube. Nos abraçamos, conversa vai, conversa vem, e quase caí duro.  O Opel era dele mesmo. Sabe o que ele faz? É alto funcionário da Petrobrás. Ganha um dinheirão! É sócio do clube!

Meu amigo não se conformava com a própria descoberta, e queria repartir comigo a sua indignação. Fulminou-me, patético:

-Vê se é possível, o Joaquim, um negro daqueles, muito melhor de vida do que a gente!

Confesso que não tive coragem de contrapor-lhe a minha indignação com a indignação dele.

Vai, Joaquim, vai ser feliz na vida. Ninguém merece mais do que você.

Se ouvisse o diálogo, Joaquim, estou certo de que você sorriria. No máximo, seria um sorriso triste, de pena do nosso amigo. Infeliz amigo.

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(Cinquenta anos depois, Jessé Souza conta a mesma história, só que com muito mais detalhes e profundidade).

*Jornalista de Guarapuava

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