VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER – Você pode estar sendo cúmplice!

“Quem se cala diante de uma violência física, psicológica ou moral é o cúmplice covarde do feito!”, Isaura Fernandez

*Paulino Lorenzo

Basta digitar violência contra a mulher em qualquer buscador da internet e, de imediato, surgem mais de 39 milhões de possíveis consultas sobre o assunto. Se procurar na língua inglesa passa dos 135 milhões de resultados. Isto indica que muito, ou quase tudo, já foi dito sore o tema.

Entretanto, o problema persiste e, pelo que pude ler, parece não diminuir com o tempo. As estatísticas são alarmantes no mundo inteiro e o Brasil, lamentavelmente, ocupa um desonroso 5º lugar dentre os países mais violentos do mundo; detalhe que este ranking trata somente de violência contra a mulher. No nosso tão belo e paradisíaco país matamos 48 vezes mais mulheres que no Reino Unido, por exemplo.

Antes de tecer mais comentários é de suma importância frisar que qualquer tipo de violência é abominável, seja ela contra gênero, raça ou credo e, como escreveu o poeta e filósofo Schiller, ela é sempre terrível, mesmo quando a causa é justa. A Filosofia entende a violência como a atitude de um ser humano contra outro que ele julga impedir a realização de seu desejo. Para Nietzsche e vários outros filósofos essa violência é inerente à pessoa, ou seja, ela é da natureza do ser humano. Outros pensadores, como Rosseau, acreditavam ser o homem um produto do meio em que vive, portanto, os humanos violentos advêm de uma vida social desestruturada. Desta contradição surge uma ambivalência moral do conceito de violência, já que Rousseau, bem como seus seguidores, a rejeitam categoricamente por anular o direito de quem a sofre, enquanto outros supõem ser a violência uma virtude liberadora quando utilizada em resposta a uma violência anterior.

Conceitos filosóficos (muitas vezes complicados) à parte, nesta crônica, que trata especificamente da violência dirigida às mulheres, vou procurar focar num ponto que, suponho, pouco ou nada se fala: a cumplicidade no ato de violência contra uma mulher. Será um assunto delicado e com certeza polêmico pois, trata de todos nós. Sim! De mim, da vítima, do outro e de você que agora lê este texto. Deixemos você, o(a) leitor(a), para depois e foquemos, então, na vítima. Você, mulher, que recebe um tapa, um soco, um empurrão, um grito ou uma ofensa verbal de seu companheiro está, mesmo que você não perceba, sofrendo violência doméstica. Não cabe a nenhum de nós julgar o porquê, após sofrer qualquer tipo de violência, essa mulher ainda permanece ao lado do agressor e, na maioria das vezes, sequer o denuncia. Somente lendo sobre o assunto, sobretudo depoimentos de mulheres vítimas, é que se percebe que o vínculo emocional entre vítima e agressor é o principal fator que faz com que ela permaneça neste ambiente opressivo. Este vínculo às vezes é tão forte que esta mulher nem percebe que essas ofensas, ou este empurrão, é violência pura. É claro que colaboram com esta situação o medo de deixar os filhos, medo de não ter como sobreviver economicamente, medo do que o agressor poderia fazer se fosse denunciado, enfim, medo é a palavra-chave.

Onde entra, então, essa cumplicidade (no sentido ruim da palavra)? O cúmplice é aquela pessoa “que contribui de forma secundária para a realização de crime de outrem”. É triste, mas, ao permanecer ao lado do agressor, independente do motivo, a vítima passa a dar oportunidade de ser agredida novamente, portanto, colabora com sua própria agressão. Todavia, convenhamos, essa mulher é, antes de mais nada, vítima!

Quanto a nós, todos os outros, inclusive você que ainda não desistiu de ler estas linhas, quantas e quantas vezes não fomos cúmplices de uma agressão? Quantas vezes não ouvimos, através da parede, gritos de ofensa ou até mesmo um “me solta”? O fato é que não agimos, preferimos não interferir, aquele velho blábláblá de não meter a colher e, no outro dia, vemos um olho roxo disfarçado atrás de uns óculos escuros, marcas pelos braços ou assistimos a reportagem sobre um corpo de mulher que “pulou” da sacada. Ninguém mata uma mulher na primeira discussão, no primeiro tapa. É quase sempre a crônica de uma morte anunciada. Não fiquemos omissos. Se está havendo um quebra-pau no vizinho, toque a campainha, peça algo emprestado, dê uma chance para que vítima saia. Se a violência for iminente disque 190, a polícia virá de imediato. Se for uma situação contumaz disque 180. Você, eu, todos nós, permaneceremos anônimos, mas, não seremos CÚMPLICES!!

PS.: Não se preocupe, a cumplicidade em casos desta natureza não resulta em condenação penal… é só a consciência que pesa depois.

*Graduado e pós-graduado em Filosofia, livre-pensador, contista e poeta amador, cinéfilo, apreciador de blues e do Pink Floyd.

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