Imagine um pai de família que, com o telhado da casa prestes a ruir e as contas básicas atrasadas, decide contrair um novo empréstimo não para consertar as vigas, mas para contratar uma banda e servir um banquete aos vizinhos. A festa rende aplausos efêmeros disfarçando a penúria, mas, no dia seguinte, a chuva continuará invadindo a sala e a dívida estará impiedosamente maior. Parece uma insanidade doméstica, mas é exatamente essa a lógica nefasta que o Brasil volta a testemunhar ao sucumbir às velhas tentações do populismo fiscal eleitoreiro.
Em vez da coragem necessária para frear os gastos públicos e recolocar o orçamento nos trilhos da sobriedade, assiste-se a velhas manobras de ocasião. O calendário eleitoral se avizinha e, como em um passe de mágica, surgem medidas dirigidas aos Microempreendedores Individuais (MEI) sob a roupagem de salvação. Ora, quem acorda de madrugada para empreender precisa de desregulamentação, segurança jurídica e simplificação tributária, e não de concessões casuísticas desenhadas para capturar a simpatia das urnas no curto prazo.
O mesmo roteiro se repete nas sucessivas alterações de regras no Bolsa Família e na liberação indiscriminada de subsídios econômicos às vésperas das votações de primeiro e segundo turno. Trata-se da perversa instrumentalização da vulnerabilidade social em favor da perpetuação hegemônica. Ações que deveriam ser pontes para a emancipação do cidadão acabam rebaixadas a moedas de troca política. A matemática, contudo, é implacável e desconhece a demagogia: todo gasto distribuído sem lastro orçamentário se converte em inflação corroendo o salário do trabalhador e em juros punitivos estrangulando o crédito.
Essa dinâmica expõe nossa fratura central: o país segue refém de mesquinhos projetos de poder, órfão de um autêntico projeto de nação. Um projeto de poder é imediatista e provinciano; mira apenas a próxima pesquisa eleitoral, hipotecando o futuro coletivo. Já um projeto de nação exige líderes com visão de estadista — dispostos a plantar as árvores sob cuja sombra talvez nunca venham a se sentar. A responsabilidade fiscal está longe de ser mero fetiche contábil; ela é o esteio ético que garante investimentos produtivos, gera empregos e protege os mais vulneráveis do caos econômico.
É urgente que o eleitor desenvolva essa lucidez cívica. Fórmulas comprovadamente fracassadas jamais produzirão resultados diferentes. Acreditar que a gastança desenfreada e o descontrole das contas gerarão riqueza sustentável equivale a tentar apagar um incêndio jogando combustível nas chamas.
A verdadeira mudança nasce do despertar do senso crítico. Enquanto aceitarmos o anestésico do agrado efêmero em troca da subserviência eleitoral, continuaremos aprisionados à mediocridade do subdesenvolvimento. O Brasil tem vocação para a prosperidade e a grandeza, mas essa travessia só se concretizará quando trocarmos a ilusão da facilidade pela coragem da disciplina fiscal.
Entendemos que é hora da mudança!