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Você deveria se preocupar com a liberdade

A liberdade nunca é tomada de assalto em um único dia; ela é gradualmente negociada sob o manto sedutor da segurança ou da dita harmonia social.

Redação
Redação Colunista
6 min de leitura
Mario Luchetta
Mario Luchetta

Há uma lição milenar que a história teima em nos repetir: a liberdade nunca é tomada de assalto em um único dia; ela é gradualmente negociada sob o manto sedutor da segurança ou da dita harmonia social. Quando os antigos construtores viam uma fresta nas muralhas de uma fortaleza, sabiam que o perigo imediato não residia na fenda visível, mas na água que, infiltrada lentamente pelo silêncio, viria a ruir as fundações de toda a estrutura. A história das nações prósperas nos ensina que a tirania raramente bate à porta vestindo as roupagens do despotismo explícito; ela costuma entrar de mansinho, apresentando-se como defensora da ordem.

Assistir ao primeiro pronunciamento do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, e ouvi-lo priorizar a regulação das redes sociais não é apenas um sinal de alerta — é o som inequívoco da marreta golpeando os pilares da nossa cidadania. Em vez de acenar com um horizonte de pacificação, responsabilidade fiscal ou modernização produtiva, a primeira urgência manifestada pelo poder que se perpetua foi impor rédeas à praça pública digital, o último refúgio onde o cidadão comum ainda faz ecoar sua voz de forma direta e sem filtros palacianos.

É preciso encarar a realidade com a lucidez dos fatos: a perspectiva de um quarto mandato presidencial (sem somar o período Dilma) não representa a mera continuidade de um projeto de governo, mas o risco iminente de consolidação de uma hegemonia que asfixia a pluralidade. Sob o eufemismo técnico de "regulação", esconde-se o velho ímpeto de tutelar o pensamento, decidir monocraticamente o que é verdade e silenciar o contraditório legítimo.

Mais alarmante ainda é constatar que esse movimento não ocorre no vácuo. Desenha-se, aos olhos de qualquer observador atento, um aparente consórcio institucional envolvendo as mais altas cúpulas do Poder Judiciário. O que outrora deveria funcionar como o fiel da balança republicana — garantindo o estrito cumprimento da Constituição e a contenção dos excessos do Executivo — transmudou-se em um arranjo preocupante, no qual a vigilância constante substitui a garantia de direitos e a tutela estatal suplanta a soberania individual. Há um visível descompromisso com a verdadeira essência democrática, transformando o conceito sagrado de liberdade em uma concessão condicional do Estado.

Para aqueles que trabalham, empreendem e sonham com um projeto de país livre, desenvolvido e genuinamente próspero, o momento impõe uma apreensão legítima e profunda. O resultado eleitoral ainda soa desnorteante para milhões de brasileiros que enxergam com clareza o abismo entre o discurso oficial e a realidade das nossas liberdades civis. No entanto, o desalento é o terreno mais fértil para o avanço do arbítrio.

A resignação não pode ser uma alternativa aceitável, tampouco o silêncio. Como cidadão que sempre acreditou na força da sociedade civil e no debate público fundamentado, afirmo: calar-se agora é consentir com o estreitamento irreversível dos nossos horizontes.

A preservação da democracia exige maturidade, vigilância cívica e coragem inegociável. Não estamos diante de disputas partidárias passageiras, mas do dever moral de defender os alicerces institucionais que asseguram que pensar, produzir e discordar permaneçam como direitos fundamentais. Precisamos todos ficar a postos para defender o que é certo, com serenidade, equilíbrio e determinação. O Brasil pertence ao seu povo, e sua grandeza reside exatamente na voz soberana de uma sociedade livre.