Algumas interpretações conjunturais vão se tornando senso comum conforme nos afastamos dos intensos dias que antecederam a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Parece-me que todos concordamos que o resultado do primeiro turno foi a faísca para a histórica mobilização que começou em 5 outubro de 2026, com aqueles jovens estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) convocando o primeiro de uma sequência de atos de rua.

É seguro dizer, também, que o clima de 'já ganhou' atrapalhou a votação final do senador, autoproclamado presidente, Flávio Bolsonaro. Além disso, há certo consenso que a disputa eleitoral envolveu menos um sim a Lula que um não à família Bolsonaro.
Outra análise bastante difundida confere ao trabalho de André Janones frente ao 'Exército do Lula' caráter fundamental na batalha digital travada no segundo turno. Essa certeza vem, agora que o incumbente venceu, acrescida de um asterisco: é preciso pensar os limites do janonismo.
Sempre haverá o cauteloso (e correto) analista que dirá que o bolsonarismo, apesar de derrotado nas urnas, ainda vive e movimenta os anseios protofascistas presentes na sociedade brasileira (vide a reação violenta de civis e policiais contra eleitores do atual presidente, ou as campanhas de boicote a 'comércios petistas').
Enfim: aos cientistas políticos caberá [tentar] saldar o que houver de dívidas interpretativas na maior virada eleitoral do século.
O que dizer, então, de novo?
Ouvi ou li, não me recordo onde, que este pleito mostrou que em matéria de política o impossível de hoje é o possível de amanhã. Se há quatro anos me dissessem que o comunista Jones Manoel seria o segundo deputado federal mais votado do segundo maior colégio eleitoral do nordeste, dificilmente acreditaria.
A conjuntura muda rapidamente. Para a esquerda, mais importante do que procurar a bala de prata das eleições é aproveitar a janela histórica aberta pelas mobilizações populares e começar a pautar propositivamente o debate.
Isso passa por tornar senso comum que a política não se resume à escolha de representantes, que trabalhadores não são apenas destinatários de políticas públicas e que a organização coletiva é capaz de alterar concretamente as condições de vida.
É a chance de colocar no centro do debate a democratização dos meios de comunicação, o enfrentamento à concentração de riqueza, o controle democrático das plataformas digitais e a desmercantilização da moradia, da saúde, da educação e da cultura. Pautas tão presentes no cotidiano quanto aquelas que a direita conseguiu impor ao debate nacional.
Também cabe na agenda a reestatização da Eletrobras, da BR Distribuidora, da Liquigás e da TAG, além da retomada do controle público sobre setores estratégicos de energia.

Nos limites da institucionalidade, o Lula IV pode ser um mandato histórico se não desmobilizar as massas e fazer o que tanto se pede do Partido dos Trabalhadores: governar com o povo que o elegeu. Esse horizonte popular, aliás, pode ser a única forma de governabilidade tendo em vista o congresso que toma posse em 2027.
Para a esquerda radical, há uma disposição coletiva de participação cujo valor não pode ser subestimado. Muita gente que não se via como parte de uma organização política, inclusive em Guarapuava, passou a participar de atos, comitês e outras iniciativas. Pessoas que talvez nunca tivessem se envolvido diretamente na disputa política descobriram que podiam interferir nos rumos dos acontecimentos.
O desafio agora é deslocar essa energia da defesa para a ofensiva. Em vez de despender esforços apenas contra um adversário, construir uma mobilização permanente em torno das próprias pautas da esquerda.