Seis meses após o Governo do Paraná anunciar cerca de R$ 100 milhões para ampliar o Aeroporto Tancredo Thomas de Faria, o convênio que libera o recurso ainda não foi assinado. A Prefeitura de Guarapuava estima hoje o custo da obra em R$ 122 milhões. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Julio Agner, a execução deve levar de 18 a 24 meses a partir da licitação.
O aeroporto está sem voos comerciais desde 1º de setembro de 2025, quando a Azul encerrou a rota para Curitiba.
O Portal RSN entrevistou o secretário e consultou os protocolos do convênio no sistema e-Protocolo do Estado, os 27 documentos do processo aberto pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e memorandos internos da Prefeitura.
A ampliação prevê pista de 1.800 por 45 metros, novo pátio, balizamento, sistema de aproximação por luzes (PAPI) e novo terminal de passageiros. Hoje, a pista opera com 1.365 metros de comprimento e 30 de largura, conforme a lista de características do aeródromo publicada pela Anac. Com a obra, o aeroporto passaria da categoria 2C para a 4C, apta a receber jatos de médio porte.

Segundo Agner, a estimativa atual é de R$ 88 milhões para pista e pátio e R$ 34 milhões para o terminal.
O projeto técnico foi pago por 12 empresas reunidas pela Associação Comercial e Empresarial de Guarapuava (Acig) e por outras entidades do chamado GT Voa. O valor somou R$ 700 mil. A Orion Aeroportos elaborou os estudos, entregues ao governador Ratinho Junior em dezembro de 2025.
ONDE ESTÁ O CONVÊNIO
O pedido tramita na Secretaria de Infraestrutura e Logística (Seil) em dois protocolos: n.º 25.245.773-9, de pista e pátio, e n.º 25.483.081-0, do terminal. A divisão ocorre porque as obras exigem empresas de perfis diferentes, explicou o secretário.
O Portal RSN teve acesso à íntegra do protocolo do terminal. Em 17 de março, a engenheira da Seil responsável pela análise registrou que não conseguiu abrir o primeiro link com os projetos enviado pela Prefeitura. O segundo não trazia orçamento, memorial de cálculo nem cronograma.
Em 11 de junho, uma segunda análise apontou três pendências. A licença ambiental anexada era a de operação do aeroporto, e não a de ampliação exigida pela Instrução Normativa n.º 23/2025 do Instituto Água e Terra (IAT). A Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) de fiscalização estava sem a assinatura do Município. E, dos documentos pessoais do prefeito, só RG e CPF haviam sido enviados.



Agner disse que a Seil devolve as inconformidades para correção e que o projeto já voltou várias vezes, mas que está bem encaminhado. As últimas observações chegaram na semana da entrevista. A Prefeitura deve reenviar as pranchas assinadas de pista e pátio. O terminal ainda depende de projetos complementares e orçamentos. "É uma obra bem complexa. Para você ter uma ideia, são mais de 200 pranchas de projetos."

Em nota, a Prefeitura informou que os projetos "aguardam encaminhamentos para assinatura do termo de convênio". A Seil não respondeu aos questionamentos do Portal RSN até a publicação.
LICENÇA AMBIENTAL
A obra exige supressão de vegetação na cabeceira oeste, levantamento de espécies e compensação ambiental. O licenciamento no IAT tem três fases: licença prévia, de instalação e de operação. Agner afirma que o pedido da licença prévia já foi protocolado e que o estudo ambiental deve levar cerca de seis meses, com audiência pública.
O IAT informou que está apurando as perguntas enviadas pela reportagem.
TERRENOS E FAMÍLIAS
A área do futuro pátio e terminal tem cerca de 46 mil metros quadrados e pertence a cinco sócios. Segundo Agner, eles assinaram termo de compromisso com o prefeito Denilson Baitala. Quatro avaliadores da Prefeitura definiram os valores. Três áreas serão trocadas por imóveis do Município. Uma quarta, pública, é alvo de reintegração de posse.
A lei das permutas será enviada à Câmara depois que o recurso estadual estiver garantido, informou o secretário.
"As negociações estão sendo conduzidas prioritariamente de forma consensual, com a proposta de permutas por terrenos que já pertencem ao Município, buscando viabilizar a aquisição das áreas necessárias sem a necessidade, neste momento, de medidas mais complexas de desapropriação. As tratativas estão avançadas e os principais proprietários das áreas de interesse já manifestaram concordância com a possibilidade de negociação."
Na cabeceira próxima à BR-277 vivem 32 famílias. O Município diz ter cadastrado os moradores e definido o local de reassentamento.
A avenida de acesso tem projeto pronto e ainda não tem financiamento. A Prefeitura cita parceria com a Itaipu ou linha de crédito. Para o estacionamento, estuda uma parceria público-privada.

PRAZO DA ANAC
Paralelamente, o aeroporto precisa entregar à Anac um Plano Diretor Aeroportuário (PDIR). Pelo artigo 1º da Resolução n.º 153/2010, sem o documento a agência não autoriza modificações no aeródromo nem novos voos regulares.
A Anac abriu o processo n.º 00058.017645/2025-82 em março de 2025. O primeiro prazo venceu em abril de 2026. O Município pediu mais um ano, sob o argumento de que a ampliação mudaria o conteúdo do plano. A agência fixou o limite em março de 2027 e o reafirmou em 8 de setembro.
Em agosto, o diretor aeroportuário, Jéferson Costa, enviou ofício à Secretaria de Desenvolvimento Econômico sobre o risco de multas e restrições operacionais caso o prazo não seja cumprido.
"Tendo em vista o histórico do processo, ressalta-se a extrema gravidade técnica do tema e a imperiosa necessidade de tempestividade na consolidação dos projetos de infraestrutura sob responsabilidade dessa pasta", diz o ofício.


Agner contemporizou a situação, mas admitiu prazo curto:
"Nós não tínhamos a ideia da obra. Começamos a ter a noção da obra mais ou menos em abril e maio, quando começou aquele problema da linha aérea. Eu havia tentado protelar, no sentido da gente ter um plano diretor baseado na nossa ampliação. Coisa que nós não vamos poder fazer mais. O prazo não vai ser dilatado mais e nós temos que entregar agora."
Segundo o secretário, o termo de referência da licitação está pronto. Orçamentos de empresas especializadas variam de R$ 200 mil a R$ 400 mil. A previsão é abrir a licitação até novembro.
O diretor aeroportuário não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.
POR QUE A PISTA PRECISA CRESCER
Agner afirma que a ocupação dos voos da Azul passava de 70% e chegava a 80% nos dias úteis. A empresa encerrou a rota durante sua recuperação judicial.

Conforme o secretário, a pista tem 1.620 metros físicos, mas perdeu cerca de 250 metros operacionais por causa da ocupação na cabeceira. O ATR-72, turboélice usado na rota, opera com 80% da capacidade em pistas de cerca de 1.350 metros. Em dias quentes, a companhia limitava a lotação. Passageiros seguiam de van e bagagens ficavam em terra.
"Os jatos não operam em pista com 30 metros", disse Agner. De acordo com ele, a área operacional das companhias consultadas perguntou se o aeroporto tinha pista de 1.800 metros, 45 metros de largura e PAPI. Nenhum dos três existe hoje.
SETOR PRODUTIVO
"Existe uma expectativa legítima do setor produtivo de que as próximas etapas avancem com celeridade", afirmou a presidente da Acig, Maria Inês Guiné. Sobre o PDIR, ela disse que a responsabilidade é da administração aeroportuária: "Se há um prazo estabelecido pela Anac, entendemos que é fundamental que ele seja observado."
Edson Ono, diretor da Fiep, disse que a federação acompanha o processo. "Infelizmente, está um pouco moroso."
RETOMADA DEPENDE DAS COMPANHIAS
Concluída a obra, o Município precisa pedir à Anac e ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) a reclassificação do aeroporto. A decisão de voltar a voar para Guarapuava cabe às empresas aéreas, informou a Anac em resposta a pedido via Lei de Acesso à Informação.

"A companhia não vem aqui por conta do prefeito. Eles vêm por causa do mercado", disse Agner.