teste ilustrada drummond

INTRODUÇÃO

Carlos Drummond – 30 anos da morte do poeta

Nos 30 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, a Folha publica especial com textos, análise e curiosidades sobre a vida e a obra do poeta de Itabira (MG), morto em 17 de agosto de 1987. Deslize abaixo para descobrir imagens e acompanhar poesias narradas em áudio. Não deixe de fazer o quiz “Quem é você no poema ‘Quadrilha’” e de ver as fotos enviadas pelos leitores.

BIBLIOTECA DE DRUMMOND

De circo a aves esquisitas, papéis revelam interesses de Drummond

MAURICIO MEIRELES

ENVIADO ESPECIAL AO RIO

Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia, mas realmente é uma flor.

Está ali, amassada entre páginas de uma edição antiga, coberta em um papel amarelecido, com uma anotação: “Flor colhida na sepultura de mamãe em 28/09/1952”.

Nesta quinta (17) completam-se 30 anos que o dono da letra, Carlos Drummond de Andrade, também morreu. Ficaram a obra e os rastros -entre eles sua biblioteca, de 4.000 volumes, hoje guardada na sede carioca do Instituto Moreira Salles.

A biblioteca em si já diz muito sobre um autor, mas ela tem ainda um mundo subterrâneo: tudo aquilo que o poeta guardava dentro dos livros, um conjunto de centenas de documentos. A flor, desafiando as traças, está entre eles.

A reportagem passou dois dias revirando os papéis, para ver o que revelam do imaginário do poeta mineiro.

“Impressiona a multiplicidade de interesses dele. É um leque de assuntos muito especial não só como cronista mas como poeta também”, diz o jornalista Humberto Werneck, que trabalha em uma biografia do autor para a Companhia das Letras, a ser concluída em 2018.

O interesse pelos bichos, por exemplo, está lá –ao lado da amiga Lya Cavalcanti, o poeta era defensor dos animais. Com ela, chegou a editar um jornalzinho mimeografado, “A Voz dos que Não Falam”, em defesa da causa (veja só, ao lado, a entrevista que o poeta deu a um cachorro, em uma das edições).

Quando, em 1961, o astronauta russo Gherman Titov viajou para o espaço sideral, Drummond guardou uma crônica sobre sua esperança de que a façanha do soviético despertasse na humanidade o amor pelos beija-flores.

“O beija-flor, velha amizade nossa, não é comuna nem capitalista […], não quer conquistar o ignoto –e como voa!”, escreveu.

O circo, que tanto encantou os modernistas –a geração de 1922 tinha fascínio pelo palhaço Piolim–, é um dos assuntos que Drummond compilava em maior quantidade.

Em 1985, por exemplo, o poeta mineiro guardou uma reportagem do “Jornal do Brasil” em que um anão palhaço explica como funcionava a divisão de alojamentos no Circo Orlando Orfei:

“A carreta onde moram as bailarinas é a favela do circo […], a dos empregados e motoristas é o bairro operário […], o trailer de Orlando Orfei é o palácio do governo. E a bilheteria é a casa da moeda.”

Outro, de um caderno de economia, registra Dona Carlota, matriarca de um circo, lamentando que o picadeiro seja um péssimo negócio.

Como garantia de suas dívidas –custavam caro os 80 quilos de carne diários para 19 tigres–, ela empenhara seu elefante indiano, que custava US$ 60 mil. E Carlota amava a bicharada.

“[Meus chimpanzés] não apanham para aprender os números e, por isso, não têm raiva das pessoas. Eu os amo e eles sabem disso”, dizia.

O livro “Geringonça Carioca”, de Raul Pederneiras, traz uma lista de gírias de 1946, como “é de chuá” (fácil de fazer); “estar teso” (sem grana); e “enfeza, mas não maltrata” (zanga, mas não ofende).

Essas gírias depois foram parar em “Rio de Janeiro em Prosa e Verso”, antologia sobre a cidade que o poeta organizou com Manuel Bandeira.

Os temas desdobram-se aos montes –a caricatura e o desejo estão ali (Drummond fazia desenhos de sua silhueta careca e magricela), também os obituários de grandes autores e como gostava de “descansar a cuca” lendo a revista “Careta”. Todos sob grande organização, o sonho de qualquer pesquisador.

“Ele tinha cacoetes de burocrata para o bem e para o mal. Esse convívio com o papel, ele ganhou a vida nisso”, diz Humberto Werneck.

A FLOR E A NÁUSEA (TRECHO)

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

ANÁLISE

Consciência lírica de Drummond segue aberta para o mundo

ALCIDES VILLAÇA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Que o “espírito de Minas” nos visite para repensarmos, neste outro século, o legado da poesia de Drummond –essa vibração de consciência lírica, entre mineira e cósmica, socializável na medida mesma em que é tão pessoal.

O poeta antecipou-se e perguntou, em meio a sua trajetória, na onda alta do livro “Claro Enigma” (1951): “Que lembrança darei ao país que me deu / tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?”.

Nos versos desse soneto “Legado”, ao tempo em que preteriu o moderno pelo “eterno”, aludia cerimoniosamente à famosa pedra inaugural de “No meio do caminho”, poema que nos primeiros anos modernistas marcava uma nova gramática e a disposição nascente de uma obsessiva sensibilidade crítica, de lirismo confessional e de lucidez irônica.

No “poema da pedra” estava a matriz poética drummondiana, apta a desdobrar-se: sucessivos e variados enigmas vão provocando a sensibilidade do sujeito e a reação reflexiva das “retinas tão fatigadas”, instando-o a compor perplexidades e lucidez, carências projetadas na luz desnorteante.

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Variadas são as pedras do caminho, as atribulações íntimas desse caminhante do século 20. O poeta gauche, desajeitado sujeito, tira partido da insuficiência e molda suas livres perplexidades em registro crítico. Drummond habilita seus leitores a ocuparem esse lugar inquieto da incerteza e da relativização modernas, moduladas por recursos poéticos tão altos como culposos em sua fome de ideais.

Se o mundo se recusa a caber na intimidade de um sujeito tão declaradamente restrito, este sabe espelhá-lo em negativo como aspiração utópica: “onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis”. Mas se o sujeito amarga seu deslocamento na ordem maior dos poderes violentos do mundo, particulariza sua biografia e sua classe no desejo de estar entre os homens –e a necessidade bruta da flor social rompe no asfalto como uma espera.

Uma dialética desse tipo impõe-nos considerar o que seja nosso estar no mundo, ao mesmo tempo em que nos provê da riqueza de ritmos e imagens em que se faz poética.

Ao longo de sessenta anos de produção, Drummond amarrou com laços constantes e variados o que numa crônica identificou como a “rotina” e a “quimera”, isto é, as marcas do cotidiano de quem habita a “praça dos convites” e o desejo de projetá-los até onde alcança a consciência idealizante.

A busca instiga e o desencontro tem beleza –talvez seja este o movimento essencial que o poeta imprime em nossa cumplicidade de leitura.

Como a busca e o desencontro vão referindo objetos muito variados ao longo do século, identificados na formação do sujeito e no tempo social, variadíssimo é o painel de temas e formas que se aglutinam na ampla poética drummondiana.

Lá estão a timidez investigativa, a escavação das palavras, o telurismo da província, a atração do moderno, a culpa da lucidez irônica, a sedução socialista, o retorno crítico aos mitos, a memória escavadora, o adeus desencantado –que se vão expressando na oralidade, no epigrama, no verso solene, na narrativa, na especulação linguística, no discurso solto ou seco, na interrogação e na negativa.

Em cada um desses tópicos espelha-se algo que está em nós mesmos, como sabe conseguir a façanha de um grande lírico.

Num tempo em que o Brasil se aflige, na busca ou na esquiva de si, lembremos que o poeta nunca se ajustou a algum nacionalismo: não chancelou a síntese de interesses tão dispersos a que pudesse chamar de pátria, e em seu “Hino Nacional”, num longínquo 1934, deu voz a uma corajosa perplexidade: “Nenhum Brasil existe. / E acaso existirão os brasileiros?”

A pergunta continua em aberto, para quem não se contenta com a resposta pronta de alguma ideologia. Aberta segue também a poesia de Drummond, como expressão de uma consciência às voltas com seus limites e seu desejo de mundo.

ALCIDES VILLAÇA é professor de Literatura Brasileira da USP

QUIZ

Quem é você no poema ‘A Quadrilha’?

Comentários