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Se você tropeça em uma nova, promissora e urgente revelação a cada cinco minutos, será que adianta?
Thiago de OliveiraJornalista
3 min de leitura
A extração da pedra da loucura (1494), Hieronymus Bosch
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"Eu li num artigo!", repete o personagem de Daniel Furlan em uma esquete do saudoso Amada Foca, canal de humor de muito sucesso no YouTube na década passada. Ele contracena com Bento Ribeiro, que na cena inicial come um ovo. “Ovinho?”, contesta Furlan, “tá maluco, cara?! Isso aí é colesterol puro! Cê vai comer isso? Eu li num artigo que é perigoso.”
Na sequência, o personagem de Bento diz que vai pedir um frango. "FRANGO? Você sabe o quanto de hormônio que eles injetam num frango?” Então um peixe. "PEIXE? Peixe é o porco do mar. Peixe só come lixo.” Então de repente um porco... “O porco é o peixe da terra!" E assim se delineia o humor da esquete (não sei se muito bem transposto aqui).
[caption id="attachment_336152" align="aligncenter"]Bento e Furlan também contracenaram no clássico 'Cala a boca, você fuma!' (Foto: Reprodução/Amada Foca)Bento e Furlan também contracenaram no clássico 'Cala a boca, você fuma!' (Foto: Reprodução/Amada Foca) Ovinho? (Foto: Reprodução/Amada Foca)[/caption]
Raul Seixas ironiza os explicadores na música ‘Todo mundo explica’ (1978): “Explica Freud, o padre explica / Krishnamurti tá vendendo a explicação na livraria / Que lhe faz a prestação que tem Platão que explica / Que explica tudo tão bem / vai lá que todo mundo explica.” Após citar mais exemplos, Raul finaliza a enumeração dizendo que eles agem com o “carimbo positivo da ciência que aprova e classifica”.
Os apaixonados por artigos científicos duvidosos 100% atualizados, os psicanalistas, os filósofos, os religiosos e os gurus atualmente dividem espaço, on-line, com um montão de pessoas ávidas por dizer aos outros o que fazer. Indivíduos um tantão mais irritantes pois se baseiam, geralmente, na experiência pessoal para orientar o público faminto por autoconhecimento.
Todo mundo explica
Infestam a internet explicadores listando dez motivos para você começar pilates; quinze razões para deixar o Instagram; como eu venci a procrastinação; a lição que mudou minha história; sinais de que você deveria terminar com o seu namorado; aprenda a dizer não; aprenda a dizer sim; como aproveitar o tempo livre…
Há as tradicionais e infinitas listas de filmes que você PRECISA VER ou livros que você PRECISA ler. Os influencers da psiquê sugerindo transtornos a torto e a direito e o internauta, em constante autoanálise, descobrindo mais um traço escondido da própria personalidade. Os carrosséis visualmente bonitinhos e bem diagramados de páginas do Instagram falando sobre amor-próprio. As citações descontextualizadas de escritores que pouco se dariam com esse tipo de autoconhecimento redentor...
Para cada nicho da internet há um grupo de pessoas que tenta abocanhar um pedaço da audiência afetada pela insatisfação retroalimentada pelo algoritmo - que fica muito feliz com a crescente sanha do autoaperfeiçoamento.
Todo mundo explica! Esta coluna não deixa de ser uma tentativa de explicação ao sugerir que a internet algoritmizada se transformou numa máquina neurotizante. Há questões que geram reflexões (e respostas) valiosas por aí, claro. Mas se você tropeça em uma nova, promissora e urgente revelação a cada cinco minutos, será que adianta?
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