22/08/2023
Comunidade Cotidiano Em Alta Guarapuava

Dolores de Jesus Camargo poderá ser reconhecida como Serva de Deus

Dolores poderá receber oficialmente o título de Serva de Deus, que é o primeiro passo formal de uma causa de canonização

Dolores de Jesus Camargo poderá ser reconhecida como Serva de Deus (Foto: Diopuava)

A Diocese de Guarapuava poderá dar um passo importante no caminho de reconhecimento da santidade de Dolores de Jesus Camargo, jovem natural de Pinhão, cuja história de fé, sofrimento e testemunho cristão vem sendo estudada com vistas à abertura de uma causa de beatificação e canonização. O trabalho de investigação foi confiado pelo bispo diocesano, Dom Amilton Manoel da Silva, ao padre André Ricardo Santos Lima, pároco da Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição, em Palmital.

O material já reunido deverá ser encaminhado à Santa Sé, mais especificamente ao Dicastério para as Causas dos Santos, organismo da Cúria Romana responsável por analisar os processos de beatificação e canonização. É esse departamento do Vaticano que examina a documentação, avalia a fama de santidade, as virtudes e, em etapas posteriores, também os possíveis milagres atribuídos à intercessão dos candidatos.

De acordo com padre André, a missão recebida em 2021 teve os trabalhos iniciaidos com pesquisa minuciosa sobre o chamado “Caso da Dolores”. “Como ainda não é uma causa, chamamos de caso: caso da história, das virtudes ou da fama de santidade de uma determinada pessoa”. Ao longo de cinco anos, elaborou-se um relatório detalhado, com base em entrevistas, documentos, visitas a familiares e consultas a pessoas experientes no tema, incluindo padres e canonistas.

O sacerdote contou que, embora seja natural de Pinhão, nunca havia ouvido falar de Dolores antes de receber a missão. “Foi uma surpresa para mim quando Dom Amilton me ligou e perguntou se eu conhecia a história dela. Eu não conhecia. E ele disse: ‘Há, no Pinhão, a história de uma moça com fama de santidade. Gostaria que você fosse atrás, conversasse, buscasse fontes e fizesse uma pesquisa sobre ela’”.

EQUIPE

A elaboração do relatório contou com uma equipe formada de professores e colaboradores de diferentes áreas, especialmente de História e Língua Portuguesa. Padre André relatou que, além de reuniões e entrevistas, houve visitas a Pinhão e Irati. Além disso, o trabalho conta com o testemunho de dona Ana, irmã de Dolores, ainda viva. “Foi um trabalho exigente, cuidadoso e feito para preservar a veracidade dos fatos, sem exageros e sem incluir nada que pudesse ser questionável”.

De acordo com Dom Amilton, o material preparado é consistente e revela a profundidade da vida cristã da jovem. “O padre André preparou um material denso, mas muito profundo e rico de informações sobre a Dolores, sobre a sua vida humana e espiritual. Foi uma existência breve, mas consistente de valores e virtudes, particularmente na vivência cristã. Um exemplo para todos nós”.

JOVEM MARCADA PELA FÉ E PELO SOFRIMENTO

Confrome o relatório entregue ao bispo diocesano, Dolores de Jesus Camargo nasceu em 25 de março de 1932, na comunidade de Sant’Ana, em Pinhão. Era filha de Pedro Silvério de Camargo e Umbelina da Silveira Caldas. Proveniente de uma família profundamente católica, cresceu em ambiente de oração, devoção e amor à Igreja. Desde pequena demonstrava forte inclinação religiosa, desejo de ser consagrada e zelo pelas coisas de Deus. Ainda criança, aprendeu em casa as primeiras lições da fé, ajudada especialmente pela religiosidade da família e pelo uso de antigos livros de doutrina católica.

O relatório aponta que Dolores tinha grande amor à oração, à catequese, aos sacramentos e à vida da comunidade. Era devota de Nossa Senhora das Dores, São Miguel Arcanjo, Santo Antônio e Santa Filomena, rezava o Santo Rosário com fervor e cultivava uma vida interior intensa.

Aos 10 anos, foi para Guarapuava estudar no Colégio Nossa Senhora de Belém, com o desejo de seguir sua vocação religiosa. Três anos depois, por ocasião de uma enfermidade grave, a vida tomou outro rumo. Conforme a pesquisa apresentada, depois de um episódio súbito de paralisia, Dolores passou a viver acamada, sem voltar a sentar-se novamente. Os anos seguintes acabaram marcados por intensos sofrimentos físicos, limitações progressivas, perda da visão e dependência constante dos cuidados da família.

Mesmo assim, segundo os relatos recolhidos, nunca deixou de viver a fé com serenidade, paciência e espírito de oferta. O documento afirma que Dolores transformou a dor em caminho de entrega a Deus, oferecendo os sofrimentos pela conversão dos pecadores. Rezava, ensinava orações às crianças, incentivava a prática cristã e fazia do próprio leito uma escola de fé. Nunca reclamava, apesar das dores intensas, e mantinha profunda confiança em Deus.

FAMA DE SANTIDADE E CRESCIMENTO DA DEVOÇÃO

Padre André disse que uma das realidades que mais o impressionaram ao longo do trabalho foi justamente o modo como a devoção começou a surgir de forma espontânea. “O que mais nos marca é a ação de Deus. Isso foge do nosso controle. Assim que divulgamos a primeira foto da Dolores ou o primeiro texto, já surgiram devotos, instantaneamente”.

Segundo ele, esse movimento espontâneo tem chamado atenção. Muitas pessoas já visitam o túmulo de Dolores, no Cemitério da Caróba, em Pinhão. Conforme o bispo, a devoção tem crescido gradualmente, inclusive com melhorias no local de sepultamento. “Desde que começamos a investigação, fomos até o cemitério. O túmulo, que antes estava mais simples, passou por restauração pela própria família e hoje já recebe visitas. Também divulgamos uma oração para ser rezada de forma privada, sem antecipar o julgamento da Igreja, mas permitindo que os fiéis peçam a sua intercessão”.

O próprio relatório destaca que, embora não tenha havido uma devoção organizada ainda em vida, familiares e pessoas que conviveram com ela sempre percebiam algo de especial na conduta de Dolores. A alegria constante, pureza, fidelidade aos princípios católicos, espírito de oração, doçura no trato com as pessoas e capacidade de sofrer sem revolta são traços repetidos em vários testemunhos. Após a morte aos 27 anos, ocorrida em 8 de agosto de 1959, a memória permaneceu viva entre familiares e moradores da comunidade.

PRÓXIMOS PASSOS DO PROCESSO

Depois da conclusão do relatório inicial, o material acabou apresentado a Dom Amilton que levou até os bispos do Paraná. “Eu apresentei esse material aos bispos do Regional Sul 2. Eles fizeram algumas perguntas, especialmente sobre o nível de conhecimento da Dolores e a visitação ao seu túmulo”.

Agora, de acordo com padre André, a próxima etapa será a elaboração de um texto mais detalhado para envio ao Vaticano. “Se não houver objeções, eles nos darão um parecer favorável, e então a causa será oficialmente aberta na fase diocesana”.

Caso o Dicastério para as Causas dos Santos conceda o Nihil Obstat, expressão latina que significa “nada impede”, Dolores poderá receber oficialmente o título de Serva de Deus, que é o primeiro passo formal de uma causa de canonização. Depois disso, o processo seguirá com novas exigências documentais, aprofundamento das pesquisas, escuta de testemunhas e eventual análise de graças e milagres atribuídos à intercessão dela.

Numa etapa posterior, pode vir o reconhecimento do título de Venerável, depois a beatificação, mediante a comprovação de um milagre, e, por fim, a canonização, com um segundo milagre.

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Gilson Boschiero

Jornalista

Possui graduação em Jornalismo, pela Universidade Metodista de Piracicaba (1996). Mestre em Geografia pela Unicentro/PR. Tem experiência de 28 anos na área de Comunicação, com ênfase em telejornalismo e edição. Foi repórter, editor e apresentador de telejornais da TV Cultura, CNT, TV Gazeta/SP, SBT/SP, BandNews, Rede Amazônica, TV Diário, TV Vanguarda e RPC. De 2015 a 2018 foi professor colaborador do Departamento de Comunicação Social da Unicentro - Universidade do Centro-Oeste do Paraná. Em fevereiro de 2019, passou a ser o editor chefe do Portal RSN. @gilson_boschiero

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