22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

Orçamento recorde, saúde na vitrine e o teste político de Baitala

Com a maior LOA da história do município e a Câmara alinhada, o prefeito sai do “ano de herança” e entra no ano da entrega

Prefeito Denilson Baitala (Foto: arquivo RSN)

Em 2025, o prefeito de Guarapuava, Denilson Baitala (PL) governou, na prática, sob as amarras do “primeiro ano clássico”. Ou seja: estrutura administrativa em reorganização e planejamento público herdado. Um cenário que a própria Prefeitura descreveu como desafiador e vindo da gestão anterior.  Esse contexto explica o foco em agendas de articulação e captação de recursos: quando o caixa é curto (ou engessado), a política vira ponte.

Só que 2026 muda o patamar. A Câmara aprovou a LOA de R$ 925,5 milhões, tratada como o maior orçamento já registrado em Guarapuava. E, com orçamento recorde, a régua sobe junto: o eleitor não aceita mais “projeto”, “estudo” e “tratativas” como discurso principal.

O dado mais simbólico, e mais sensível, é a centralidade da saúde no debate público. A LOA prevê R$ 214,4 milhões para a Saúde (e R$ 255,3 milhões para Educação), o que reforça a expectativa de que 2026 seja o ano de transformar volume financeiro em fila menor, acesso mais rápido e atendimento mais previsível. E é aqui que entra a “obra-vitrine” da gestão: a Upinha (UPA Infantil), promessa de campanha que ganhou tração institucional, com autorização para licitar e valor divulgado na casa de R$ 7 milhões, em agenda pública com o deputado Artagão Júnior.

GEOPOLÍTICA LOCAL

Mas o “modo 2026” não é só execução: é geopolítica local, no sentido mais realista do termo. Baitala apostou forte na foto com Curitiba. E isso não é detalhe. O município esteve na vitrine de pacotes de investimento e programas estaduais, numa lógica de “carimbar recursos” para destravar obras e serviços.  O problema é que o relógio político corre: Ratinho Junior entra no último trecho do mandato. E todo fim de ciclo produz reacomodações, sucessão e disputa por prioridade. A depender do desenho estadual, a torneira pode continuar aberta ou pode mudar de mão.

CALMARIA NA CÂMARA

No Legislativo local, a aprovação do orçamento sem grande turbulência sugere um ambiente institucional favorável ao Executivo. Isso ajuda a governar, mas também elimina álibis: se a Câmara está alinhada, a responsabilidade pelo resultado fica ainda mais concentrada no prefeito. O discurso do “não dá para fazer” perde força quando o orçamento é recorde e a base não trava a pauta.

ANO ELEITORAL

E aí vem o desafio que quase ninguém diz em voz alta: 2026 é ano eleitoral, e Guarapuava vira campo de prova para o peso político real do governo municipal. A administração “fechou” com Artagão Júnior (PSD) e, politicamente, isso significa que não basta torcer por reeleição. A métrica será o tamanho da votação dentro do município. Em 2022, por exemplo, Artagão teve 9.758 votos em Guarapuava; aumentar esse número vira termômetro de prestígio e capacidade de mobilização da máquina política local.

No plano federal, a equação também se move. Rodrigo Estacho entrou como suplente em exercício na Câmara dos Deputados em novembro de 2025, na vaga de Leandre DalPonte (licenciada). Ao dar “as duas mãos” a esse novo arranjo, Baitala sinaliza que quer construir (ou consolidar) um canal em Brasília. Mas, de novo, 2026 cobra entrega: canal político sem obra, sem recurso e sem resultado vira só foto.

CENÁRIO RARO

Por fim, Guarapuava começa 2026 com um cenário raro: orçamento histórico + promessa emblemática (Upinha) + base legislativa confortável. Isso pode ser o início de um ciclo virtuoso. Ou pode virar o tipo de abundância que expõe fragilidades de gestão. A pergunta que vai dominar o ano não é “quanto vai gastar”, mas “o que vai mudar, concretamente, na vida de quem depende da saúde pública e espera obra no bairro”.

Se 2025 foi o ano da reorganização e da articulação, 2026 é o ano em que Baitala precisa, sem rodeios, mostrar a que veio. E a política, sobretudo em ano eleitoral, não perdoa orçamento recorde sem resultado.

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Cristina Esteche

Jornalista

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