22/08/2023
Guarapuava Mário Luchetta

O sequestro da cultura e a hegemonia do atraso

Há quase um século, o filósofo marxista Antonio Gramsci percebeu algo que a direita liberal, ocupada em gerar riqueza e pagar contas, demorou décadas para compreender

Mario Luchetta (Foto: divulgação)

Há quase um século, o filósofo marxista Antonio Gramsci percebeu algo que a direita liberal, ocupada em gerar riqueza e pagar contas, demorou décadas para compreender: a revolução não se faria necessariamente pela ponta do fuzil, mas pela ocupação da mente. Gramsci ensinou que, para dominar uma nação, basta dominar o que ele chamou de “superestrutura” ou “aparelhos privados de hegemonia” — as escolas, a imprensa e, fundamentalmente, a cultura.

Essa estratégia de guerra cultural silenciosa ecoou recentemente, mais uma vez, em um palco internacional. Wagner Moura, um ator de talento inquestionável, venceu o Globo de Ouro por sua atuação em “O Agente Secreto”. Moura é tão tecnicamente dotado que foi capaz de imortalizar o Capitão Nascimento, símbolo da ordem, mesmo sendo, em sua essência e vida real, a encarnação do “Fraga” — o personagem que defende a ideologia do caos travestida de direitos humanos.

No entanto, o brilho da estatueta foi ofuscado pela escuridão do discurso. Ao subir ao palco, Moura cumpriu fielmente o roteiro da elite cultural engajada: atacou oponentes políticos usando termos fortes para chocar a plateia estrangeira, enquanto mantinha um silêncio obsequioso sobre as mazelas reais que assolam o Brasil de hoje.

A hipocrisia reside justamente aí. O artista grita contra um “fascismo imaginário” ou “feridas abertas” do passado, mas cala-se — ou aplaudem — diante do autoritarismo concreto que vivemos há muito tempo, especialmente do judiciário. Onde está a voz potente da cultura contra os inquéritos ilegais e inconstitucionais, como o das fake news? Onde está a defesa da liberdade de expressão quando vemos a censura prévia ser instaurada e cidadãos sendo perseguidos sem o devido processo legal? Criou-se um espantalho de “golpe” para justificar o silenciamento de uma parte da sociedade, e a classe artística, que deveria ser a primeira a defender a liberdade, tornou-se cúmplice do arbítrio.

Mais grave ainda é o daltonismo moral em relação à ética pública. O atual governo, apoiado entusiasticamente por Moura e seus pares, é protagonizado por figuras centrais dos maiores escândalos da nossa história: Mensalão e Petrolão. E agora, como cereja desse bolo indigesto, temos o escândalo do INSS, onde o dinheiro do trabalhador e do aposentado escorre pelo ralo da ineficiência e da má gestão. Nenhum envolvido foi punido. Pelo contrário, desfilam nos corredores do poder com a arrogância de quem sabe que possui a proteção da tal “hegemonia cultural”.

Infelizmente, as leis de incentivo, que deveriam fomentar a arte na sua essência pura e revelar novos talentos nos rincões do país, tornaram-se muitas vezes ferramentas de manutenção dessa elite. Criou-se um ciclo vicioso onde grandes nomes, que não precisariam de verba pública, abocanham recursos e, em troca, oferecem sustentação ideológica a projetos de poder que flertam com o atraso. Enquanto isso, a cultura real, a do povo que produz e paga imposto, agoniza.

A triste conclusão é que o Brasil perdeu a capacidade de comemorar seus talentos de forma unida. Quando Wagner Moura discursa politicamente em um prêmio internacional, ele deixa de representar o Brasil inteiro. Passa a representar apenas o “consórcio” ideológico que tenta sequestrar as cores da nossa bandeira e o nosso “ser brasileiro”.

Precisamos, de forma consciente, fugir dessa armadilha gramsciana. A cultura não pode ser um puxadinho de partidos políticos nem um megafone de ideologias falidas. A verdadeira revolução que o Brasil precisa não é a cultural-marxista, mas a moral — aquela que valoriza a honestidade, a liberdade real e o respeito à inteligência do cidadão.

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Cristina Esteche

Jornalista

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