22/08/2023
Blog da Cris

Nem as câmeras inibiram o assédio em rede nacional

Se havia alguma dúvida de que o machismo se sente em casa diante dos holofotes, o Big Brother Brasil 2026 tratou de dissipá-la da pior forma possível

Importunação sexual (Foto: Reprodução/ Freepik)

Se existe uma coisa que o episódio de importunação sexual desta semana no Big Brother Brasil provou, é que a câmera não inibe o agressor. Ela apenas documenta o que as mulheres enfrentam todos os dias. O fato de o participante ter vindo da Casa de Vidro torna tudo ainda mais sintomático. Ele não se importou com o ‘Big Brother’. Ele agiu como se o corpo da colega fosse parte do cenário.

O choque que sentimos ao ver essas cenas na TV é o mesmo que muitas mulheres sentem ao pegar um ônibus ou frequentar um evento público. A diferença é que, na casa mais vigiada do país, a prova é imediata. Na vida real, a palavra da mulher ainda precisa atravessar um oceano de desconfiança.

Mas a cultura do “ela está ali para isso” ou “é o calor do jogo” ainda é um câncer difícil de extirpar. Se um homem se sente no direito de invadir o espaço de uma mulher sob o foco de dezenas de lentes e milhões de testemunhas, imagine o que acontece nos cantos escuros das nossas cidades, onde não há pay-per-view para denunciar?

O que aconteceu no reality não pode ser analisado sob a ótica da estratégia de jogo ou do “cancelamento”. É caso de polícia. É preciso fazer valer o Estado de Direito. Assim sendo, a segurança da mulher não deveria ser um privilégio de quem está fora de um reality show. Mas, sim, um direito básico em qualquer metro quadrado deste país. Portanto, episódios como este não podem ser tratados como “fogo no parquinho” ou estratégia de jogo. São violações de direitos humanos fundamentais. Ao completarmos oito anos da lei que tipifica a importunação, o maior presente que a sociedade pode dar às mulheres é o fim da tolerância.

ESPELHO INCÔMODO

O Big Brother virou um espelho incômodo. Ele mostra que, apesar do avanço jurídico da última década, a mentalidade de posse sobre o corpo feminino continua trancada a sete chaves na cabeça de muitos. Onde a vigilância é a regra, a proteção falhou. Que o caso do BBB 26 sirva de lição pedagógica: o corpo da mulher não é domínio público, nem mesmo sob os holofotes do programa mais assistido do Brasil.

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Cristina Esteche

Jornalista

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