22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

O exílio da mulher na própria cidade

Quase ninguém fala sobre como o desenho das nossas cidades, feitas por homens, para homens, dita o sucesso ou o cansaço da mulher moderna

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Guarapuava (Foto: Lizi Dalenogari/RSN)

Quase ninguém fala sobre como o desenho das nossas cidades, feitas por homens, para homens, dita o sucesso ou o cansaço da mulher moderna. Estava analisando como a cidade não nos enxerga. O Dia Internacional da Mulher costuma ser um inventário de conquistas e dores. Falamos de salários, de violência e de representação política. Mas há um silêncio persistente sobre o cenário onde tudo isso acontece: o desenho urbano. Se pararmos para analisar sob a lente de gênero, descobriremos que as cidades brasileiras, e nossas cidades do interior não fogem à regra, operam como um mecanismo de exclusão silenciosa.

Enquanto o planejamento urbano clássico foca no trajeto “casa-trabalho” (o fluxo pendular histórico do provedor masculino), a mulher vive a “mobilidade do cuidado”. A jornada feminina é fragmentada: é a parada na escola, o desvio para o supermercado, a ida ao posto de saúde com o familiar idoso, para só então chegar ao destino final. Quando o transporte público é escasso ou as calçadas são intransitáveis para um carrinho de bebê, a cidade está, na prática, cobrando um “pedágio de gênero”. A estrutura urbana não é neutra; ela ou potencializa a autonomia feminina ou a confina ao esgotamento.

A ARQUITETURA DO MEDO

Outro ponto que quero abordar é o urbanismo tático da segurança. Para uma mulher, atravessar uma praça mal iluminada ou esperar um ônibus em uma rua deserta após as 22h não é apenas uma questão de logística, é um cálculo de sobrevivência.

Quando o poder público falha na iluminação ou na ocupação dos espaços, ele retira da mulher o direito fundamental de pertencer à cidade. O “ficar em casa” deixa de ser uma escolha e passa a ser uma imposição do medo.

PARA ALÉM DO SIMBÓLICO

Celebrar o dia da mulher em 2026 exige que olhemos para o meio-fio, para o tempo de espera no ponto e para a iluminação pública. Não basta termos mulheres em cargos de poder se as cidades que elas gerem continuarem ignorando a gramática do corpo feminino no espaço público.

A verdadeira emancipação passa por uma cidade que entenda que o trajeto de uma mãe, de uma trabalhadora ou de uma estudante tem necessidades específicas. Ocupar a política é importante, mas ocupar a calçada com segurança e eficiência é onde a igualdade se torna, de fato, concreta.

Neste 8 de março, que o nosso ‘presente’ seja o direito de transitar sem barreiras físicas ou invisíveis.

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Cristina Esteche

Jornalista

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