22/08/2023
Blog da Cris Mundo

A lei do mais forte

A extradição forçada de Maduro por tropas de Trump ignora o Direito Internacional e cria um precedente sombrio para a América Latina

Decreto entra em vigor no dia 6 de agosto (Foto: Gage Skidmore/Wikipedia Commons)

Este dia 3 de janeiro de 2026 entra para a história não como um capítulo da crise venezuelana, mas como uma aula amarga de geopolítica. A captura e extradição de Nicolás Maduro e Cilia Flores por forças norte-americanas, sob o comando de Donald Trump, rasga o véu da diplomacia e nos coloca diante de um espelho perigoso. Quando a regra é substituída pela força, ninguém está seguro.

Para analisar o ocorrido, é preciso separar o joio do trigo. Maduro não é a Venezuela. Ele representa um arranjo de poder sustentado por armas e repressão, enquanto o povo venezuelano é quem paga a conta — seja na migração forçada ou no colapso econômico.

Entretanto, é estarrecedor observar parlamentares brasileiros celebrando a intervenção com um entusiasmo raso. Aplaudir o uso de mísseis para “resolver” dilemas políticos é de uma miopia intelectual grave. Crimes de narcoterrorismo, imputados a Maduro em documentos oficiais dos EUA, são fatos graves, mas não podem servir de “licença para invasão”. Transformar o combate ao crime em atalho para o atropelo soberano é normalizar um precedente que, cedo ou tarde, se voltará contra toda a América Latina.

Não sejamos ingênuos: a retórica da “libertação” caminha de mãos dadas com a geoeconomia. A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo (cerca de 303 bilhões de barris). Quando Trump afirma que os EUA estarão “fortemente envolvidos” na indústria petrolífera pós-operação, o enquadramento muda.

CONTROLE

O que se vende como “restauração democrática” revela-se uma reorganização estratégica de controle. O Direito Internacional existe justamente para evitar que o mundo se torne um faroeste.

A Carta da ONU (Art. 2º) veda o uso da força contra a independência política de estados. já a Carta da OEA (Art. 19) é explícita: nenhum Estado tem o direito de intervir, direta ou indiretamente, nos assuntos internos de outro.

Ao tentar enquadrar o ato como “autodefesa” (Art. 51 da ONU), os EUA desafiam a lógica jurídica global, gerando o que o Secretário-Geral da ONU chamou de “precedente perigoso”.

[E preciso saber que a Democracia não é um produto de exportação militar. Há uma contradição ética profunda em “dar vivas” à democracia enquanto se aplaude um método autoritário, personalista e unilateral. O recado de Washington é claro: “Eu decido quem fica e quem sai”. Isso não é democracia; é poder sem freio.

A história latino-americana conhece o preço desses precedentes. A última vez que vimos algo similar foi na invasão do Panamá em 1989. Quando normalizamos a captura de um chefe de Estado por operação militar estrangeira, abrimos uma porta que não se fecha. Hoje, o pretexto é a ditadura. Amanhã, será a instabilidade. Depois, apenas o interesse estratégico.

 O PERIGO DO POLÍTICO TORCEDOR

Em ano eleitoral, a política externa vira meme e a análise técnica é substituída pela torcida. Defender o povo venezuelano não exige idolatrar o intervencionismo de Trump. Combater o narcotráfico não autoriza o esmagamento das normas internacionais.

Derrubar um regime autoritário por meio da lei do mais forte não cura uma nação; apenas reintroduz a barbárie institucional. Se a Venezuela precisa de reconstrução, e precisa urgentement, o caminho deve ser a legitimidade internacional e a proteção dos civis. Não um espetáculo militar que remove um homem, mas pode incendiar um continente. Justiça não se confunde com espetáculo. E a soberania não pode ser o preço da conveniência.
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Cristina Esteche

Jornalista

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