22/08/2023
Cotidiano Thiago de Oliveira

Alô, quem fala?

Um dia você disse, pela última vez: 'agora vou entrar na internet'. Desde então, nunca mais saiu

Xilitla (2013), Rosa Menkman

Quando eu cheguei aqui era tudo mato. Bem, nem tudo. Ali, na beira daquele igarapé, fulano gritava: bom dia!, e do outro lado sicrano ouvia, limpidamente: bom dia! Não é que não houvesse ruído na comunicação, mas este meio – a internet – ainda não era tão senhor assim da mensagem, mesmo que McLuhan já tivesse postulado a centralidade do suporte midiático lá nos anos 60.

Decorridos cerca de quinze anos desde que criei minha primeira conta numa rede social, o Orkut, não faltam, hoje, apologistas de um apocalipse tecnofeudal por aí. Eu mesmo posso passar por um deles, já que volto a falar da nossa tragédia algorítmica contemporânea.

Um dia você entrou na internet e nunca mais saiu

Agora vou entrar na internet, dizíamos. Como quem vai até o igarapé para conversar com o amigo da outra margem. Depúnhamos e mandávamos scraps no Orkut; esperávamos alguém passar de ausente para online no MSN; sustentávamos uma conversa do começo ao fim; despedíamo-nos, então, e passávamos a outra atividade – fuçar um blog, por exemplo. Que saudade dos blogs! (Falando assim, parece até que vivíamos naqueles panfletos paradisíacos das Testemunhas de Jeová.)

Claro que minha razão está impregnada pela nostalgia. Mas a internet acontecia, isso é certo, em interlocuções diretas, mesmo em nichos públicos.

Hipermediados

Vi dia desses um post de uma psicóloga com o seguinte enunciado: “O Instagram está nos treinando para deixar quem nos ama”. A psi, que não conheço, apenas copiou e traduziu o que leu numa conta gringa no Substack. Que, por sua vez, adaptou o conteúdo de um outro ensaio… Enfim. Chamou a minha atenção: os feeds algorítmicos passaram a atuar como uma terceira presença nas relações, moldando sutil e substancialmente a percepção e as respostas emocionais.

(Você já se sentiu levemente decepcionado, abriu o TikTok/Instagram/Twitter, rolou a tela e encontrou forma, nome e confirmação para o sentimento que nem chegara a assimilar direito? Então!)

Em resumo, o parceiro/interlocutor deixa de ser percebido em sua complexidade e passa a ser enquadrado por narrativas prontas (assimiladas e depois interiorizadas). No limite, o texto sugere que aquilo que parece reflexão própria muitas vezes já é induzido pelo ambiente. Nada novo no front, não é?

Reforço: não é como se as relações, mesmo privadas, excluindo a internet da equação, não fossem configuradas em larga medida por elementos externos. O criador da Revista Capricho e Alan Turing ajudaram a construir o mesmo mundo. O ponto aqui é a frequência (totalizante, dizem os mais pessimistas) com que as probabilidades de percepção são mediadas no digital. Ao conversar com alguém, muitas vezes, me pergunto: com quem afinal estou falando? Estou diante de um sujeito ou apenas ouvindo o eco de um algoritmo que atua como co-enunciador da sua identidade? Claro que eu também não estou fora dessa estrutura.

A teoria de Erving Goffman – de que a vida cotidiana funciona como uma encenação teatral – ganha um novo estatuto. Tornou-se quase inconcebível viver, assimilar e depois contar, como fazia o narrador de Benjamin. Fazemos tudo em ato, como diretores de cena. E, muitas vezes, desconfiamos do nosso próprio papel – em ato; comparamos incessantemente o nosso papel com o do colega; desgastamo-nos dirigindo a nossa própria vida para uma plateia – ou várias plateias – nesse palco aberto, acessível ao mundo inteiro a qualquer momento. Cada um tem o seu próprio reality show e contribui de bom grado para o comércio das predições de consumo.

Estou acostumado a começar de leve e engrossar o caldo, até perceber que escrevi demais. Mas já que estamos aqui, bora terminar com Hegel. O filósofo alemão dizia que a consciência de si só existe como algo reconhecido. Na rede social, esse outro – difuso, mutante, sempre à vista e, ao mesmo tempo, inatingível – mora, goza e se reafirma, mas não reconhece ninguém.

E sobre o igarapé onde se encontravam fulano e sicrano eu vejo, agora, uma densa cerração. De um lado o fulano diz bom dia!, e o sicrano responde: mas já está noite! Longe, ou perto, não sei, há um ser, qual nem a silhueta é possível perceber – tamanha a bruma – que comenta: fomos capturados.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. 📧 thiagodeoliveirajor@gmail.com

Relacionadas

A missão da RSN é produzir informações e análises jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e rapidez, seguindo princípios editoriais de independência, senso crítico, pluralismo e apartidarismo. Além disso, busca contribuir para fortalecer a democracia e conscientizar a cidadania.

RSN
Visão geral da Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.