22/08/2023
Blog da Cris Brasil

Bora, começar o ano!

O ano de 2026 começa com um peso histórico e emocional difícil de ignorar. O Brasil entra em campo, com duas paixões nacionais

Explosão de fogos (Foto: Reprodução/Freepik)

O ano de 2026 começa com um peso histórico e emocional difícil de ignorar. O Brasil entra em campo, e nas urnas, com duas paixões nacionais prestes a se cruzarem no calendário. Temos a Copa do Mundo e as eleições gerais. Se por um lado o futebol promete distrair e unir torcidas em torno de um mesmo objetivo, por outro, a política segue polarizada, fragmentada e com alianças em ebulição.

É ano de disputa presidencial, de governadores, Congresso e Assembleias Legislativas. E também é ano de teste: quem sobreviveu à tempestade política dos últimos anos e quem terá fôlego para atravessar mais um ciclo eleitoral em um país esgotado por crises, desinformação e radicalismos?

 POLARIZAÇÕES PERSISTEM

No plano federal, o cenário eleitoral se desenha com um simbolismo quase cinematográfico. Lula (PT), aos 80 anos, busca a consolidação de um legado e a possibilidade de reeleição. Ou a passagem de bastão a um nome de confiança, em meio a um governo de articulações complexas e reformas tímidas. O desafio é manter a base unida, conter desgastes e lidar com uma oposição fortalecida, mesmo fora do poder.

Do outro lado, a direita bolsonarista ressurge com a provável candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. O filho do ex-presidente tenta herdar não apenas os votos, mas a força polarizadora do pai, ainda inelegível, mas politicamente influente. O bolsonarismo busca se reinventar sem perder identidade. Trata-se de uma equação que pode colar com um eleitorado fiel, mas pouco afeito a modulações.

Nesse tabuleiro, surgem também nomes da chamada “terceira via”, mas sem clareza sobre viabilidade real. A lógica da dualidade segue ditando o jogo.  Um jogo cansativo, mas ainda funcional nas urnas brasileiras.

JOGO SEGUE NO PARANÁ

Se no Brasil o cenário nacional é tenso, no Paraná as peças também se mexem. O governador Ratinho Junior (PSD) vive o último ano do segundo mandato com alta aprovação e ambições nacionais discretas, mas evidentes. Há quem veja nele um presidenciável em construção. Mas por ora, o foco parece ser garantir a sucessão em solo paranaense, com o mesmo estilo de gestão tecnocrática e imagem de “governo que entrega”.

Um refrão que se repete nos discursos de Guto Silva, Alexandre Curi e Rafael Greca, nomes cotados para dar continuidade ao projeto político do grupo que domina o Palácio Iguaçu desde 2019. Cada um carrega vantagens e também limites.

REQUIÃO FILHO E ENIO VERRI

Enquanto isso, a oposição já ensaia e coloca o bloco na rua. O nome de Requião Filho (PDT) aparece com força, tentando herdar parte do capital político do pai, Roberto Requião, ex-governador e voz histórica da esquerda paranaense.

Requião Filho, no entanto, não é só o herdeiro do nome. Ele é o herdeiro de um estilo de política que não teme o confronto. Nos últimos dias do 2025, ele transformou a Sanepar em alvo central de crítica. Ele intensificou as críticas em postagens publicadas em redes sociais e reverberadas por blogs políticos alinhados à oposição. De acordo com o deputado, a empresa, que é referência histórica em saneamento no Brasil, tem sido usada não apenas para beneficiar acionistas privados com lucros recordes, mas para alimentar uma rede de sustentação política que teria operado durante a campanha de Ratinho Junior.

Se conseguirá converter isso em votos majoritários, ainda é cedo para dizer. Mas que já incomoda, e muito, os aliados do governo, disso não resta dúvida.

Mas como sustentação à chapa ‘requianista’, Enio Verri, ex-deputado federal e atualmente à frente da Itaipu Binacional já cravou uma candidatura ao Senado Federal, seguido de perto por Zeca Dirceu.

CADÊ A BOLA?

Nesse campo quem tenta achar a bola é o ex-juiz Sergio Moro. Mas nesse drible o maior antagonista de Moro não é Lula, nem a esquerda, mas sim Ricardo Barros (PP), figura central na engenharia política do Estado e conselheiro próximo de Ratinho Junior. Barros é tudo o que Moro combateu na retórica da Lava Jato: experiente, pragmático, hábil negociador, articulador de bastidores.

E o embate entre os dois é mais do que simbólico. Ele traduz a guerra de versões sobre o que é “fazer política” no Brasil de hoje. Barros, que já foi líder de governo no Congresso e influente na formação de maiorias, representa o modelo de governabilidade via acordos e força parlamentar. Moro, por outro lado, tenta manter viva a narrativa da “faxina ética”, mas sem instrumentos reais de poder.

Esse embate trava também os projetos nacionais: Moro sonha com protagonismo, mas não tem partido, base, nem respaldo dos grandes caciques do Paraná — todos eles orbitando, de alguma forma, ao redor do grupo de Ratinho Junior. Inclusive, há quem diga que qualquer projeto majoritário de Moro em 2026 enfrentaria resistência direta do próprio governador, que busca estabilidade e previsibilidade para o legado dele.

A dúvida é se a oposição conseguirá furar o bloqueio da máquina estadual, que segue forte, alinhada com setores empresariais e ainda usufruindo de uma imagem de estabilidade administrativa. Algo raro no atual contexto político.

E A COPA EM MEIO A TUDO ISSO?

A Copa do Mundo de 2026, com jogos nos EUA, México e Canadá, será transmitida em plena campanha eleitoral. O futebol sempre foi um termômetro emocional do país, e muitos analistas alertam para o risco de que o “efeito Copa” seja instrumentalizado politicamente, especialmente nas redes sociais, onde o debate público já sofre com polarizações e fake news.

O que era para unir, pode dividir ainda mais. O que era para ser paixão, pode virar palanque. O Brasil precisa estar atento para não confundir camisa com bandeira, seleção com seita, e resultado em campo com escolha nas urnas.

ENFIM…

2026 será um ano limiar. O país se equilibra entre projetos de futuro e fantasmas do passado. O Paraná, por sua vez, pode ser laboratório de um novo ciclo político — ou repetir padrões já conhecidos. E no meio disso tudo, o eleitor, muitas vezes, segue desinformado, desiludido e dividido.

A tarefa da imprensa, dos analistas e da sociedade civil é clara: falar com lucidez, ampliar os espaços de diálogo e, acima de tudo, proteger a democracia das armadilhas do populismo e da simplificação rasa dos debates.

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Cristina Esteche

Jornalista

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