22/08/2023
Cotidiano Em Alta Saúde

Especialista explica desafios do autismo e cobra maior preparo

Psicóloga Duda Bremm destaca diagnóstico complexo, custo das terapias e a necessidade de preparo das escolas para inclusão

(Foto: Reprodução/Unicef)

A recente repercussão sobre o tratamento dado ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Guarapuava reacendeu discussões sobre diagnóstico, inclusão e os desafios enfrentados pelas famílias. Para ampliar o debate, o Portal RSN ouviu a psicóloga Duda Bremm, diretora da clínica Domínio IC – Instituto Comportamental, especializada no atendimento de pessoas com autismo e outras neurodivergências.

Segundo a especialista, o TEA é uma condição do neurodesenvolvimento e não deve ser entendido como doença.

“O TEA é uma forma diferente de o cérebro se organizar, perceber o mundo e interagir. Autismo não é doença, logo, não há o que curar. O que buscamos são intervenções e estratégias que desenvolvam habilidades e promovam qualidade de vida.”

De acordo com ela, as principais características do autismo se concentram em dois eixos: dificuldades na comunicação e na interação social e padrões de comportamento restritos ou repetitivos.

O diagnóstico também leva em conta o nível de suporte necessário para cada pessoa. O DSM-5 classifica o TEA em três níveis, conforme a necessidade de apoio. “O nível 1 exige suporte, o nível 2 exige suporte substancial e o nível 3 exige suporte muito substancial. Vale ressaltar que todo autista necessita de algum tipo de apoio; o que varia é a intensidade desse apoio. Além disso, o nível de suporte não determina o potencial de uma criança, apenas indica o quanto de ajuda ela precisará para aprender e se desenvolver.”

DIAGNÓSTICO COSTUMA SER DEMORADO

Uma das ideias equivocadas mais comuns, conforme a psicóloga, é imaginar que o diagnóstico acontece de forma simples ou rápida.

Na prática, o processo costuma ser longo e envolve várias etapas.

“A família deve buscar o apoio de um pediatra, neuropediatra ou até mesmo de um psiquiatra (especialmente no caso de adolescentes e adultos). Com o objetivo de fechar o diagnóstico, é solicitada uma avaliação neuropsicológica, que serve para investigar as funções cognitivas, comportamentais e emocionais para que este processo possa auxiliar o médico a fundamentar a análise clínica para, então, fornecer o laudo médico final.”

Mesmo quando os sinais são claros, o caminho até o diagnóstico pode ser difícil.

“O processo raramente é rápido, pois as famílias enfrentam obstáculos que vão desde a longa espera por consultas com especialistas, como neuropediatras e psiquiatras, até a complexidade do período de avaliação, que exige diversas sessões. Além do tempo, existe uma barreira financeira significativa, visto que o investimento em consultas e na avaliação neuropsicológica é alto.”

TERAPIAS E ACOMPANHAMENTO

Após o diagnóstico, o acompanhamento depende das necessidades de cada criança. Segundo Duda, não existe um modelo único de tratamento.

“Assim como nenhuma criança típica é igual a outra, o mesmo ocorre com as neurodivergentes. A depender do nível de suporte, dos déficits e dos excessos comportamentais, especialistas determinarão quais especialidades são necessárias, bem como a carga horária semanal de intervenção.”

As terapias podem abranger diversas áreas, como Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Psicomotricidade, Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Psicoterapia, Psicopedagogia, Terapia Alimentar e Equoterapia. O objetivo, explica, é sempre estimular a autonomia e melhorar a qualidade de vida.

DESAFIOS PARA AS FAMÍLIAS

Quando questionada sobre os principais desafios para as famílias, Duda diz são tantos que seria impossível citar em uma única entrevista. Um deles é o manejo de comportamentos desafiadores, como episódios de autolesão, agressividade ou crises. Muitas vezes a família não consegue identificar sozinha o que desencadeia esses comportamentos ou como preveni-los.

“Somado a isso, há o desafio da rigidez comportamental, em que a necessidade de uma rotina inflexível para evitar a desregulação faz com que qualquer imprevisto fora do controle dos pais possa resultar em crises severas, exigindo uma vigilância e uma adaptação constantes de todo o núcleo familiar.”

Outro fator importante é a rigidez de rotina que algumas crianças apresentam. Qualquer mudança inesperada pode gerar crises intensas. Isso exige vigilância e adaptação constantes por parte da família.

INCLUSÃO ESCOLAR

No ambiente escolar, a presença de apoio especializado é considerada fundamental para muitas crianças dentro do espectro.

“Este é o ambiente em que a pessoa autista passará grande parte do tempo, passará por desafios e terá múltiplas oportunidades para o aprendizado de habilidades, desde que haja apoio especializado.”

Quando há avaliação adequada, planos de ensino individualizados e adaptações curriculares, aumentam as chances de desenvolvimento.

“É o que determinará se a trajetória de ensino será fator de sofrimento e fracasso escolar ou fator de proteção e ganho de autonomia e autodeterminação. Por isso, a adequada capacitação da rede pública e particular é um tópico urgente em nossa cidade.”

MAIS DIAGNÓSTICOS

Nos últimos anos, o número de diagnósticos de autismo aumentou no Brasil e no mundo. Segundo a psicóloga, isso não significa necessariamente que existam mais casos.

“As pesquisas nos informam que o aumento se deve a algumas razões, que incluem mudança nos critérios para fazer o diagnóstico, aprimoramento de profissionais e instrumentos de rastreio e diagnóstico e conscientização da sociedade como um todo. “

FALTA DE POLÍTICAS PÚBLICAS

Apesar dos avanços na conscientização, Duda avalia que ainda há muitos desafios para garantir inclusão real. Ela diz que é preciso reduzir o estigma e aprofundar a compreensão sobre o autismo e sobre os desafios enfrentados pelas famílias. Além disso, aponta a necessidade de políticas públicas mais efetivas.

Quando falamos em deficiência, se não eliminarmos as barreiras sociais e não promovermos acessibilidade real, a inclusão não se concretiza. Além disso, precisamos elevar nosso sistema educacional através de capacitação adequada e contínua. Sem uma rede preparada para incluir de forma especializada, continuaremos a enfrentar as mesmas barreiras por muito tempo.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. @tdolvr

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