22/08/2023
Cotidiano Em Alta Saúde

Homens representam 84% das vítimas de suicídio em Guarapuava

Município registra mais vidas perdidas para o suicídio do que para assassinatos em 2025. Psiquiatra diz que barreiras culturais impedem homens de buscar ajuda

A prevenção, de acordo com a médica, começa com o rompimento do isolamento (Foto: Reprodução/Freepik)

Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) indicam que o número de mortes por suicídio (19) superou o de homicídios dolosos (18) em Guarapuava em 2025. Embora o número absoluto represente uma queda em relação ao ano anterior (30 mortes), Guarapuava permanece entre os municípios com maior notificação no Paraná, atrás apenas de Curitiba, Londrina, Ponta Grossa e Maringá.

Das 19 vítimas, 16 eram homens e três mulheres. Na série histórica, de 2017 a 2025, Guarapuava soma 155 mortes por suicídio, dos quais 131 (84,5%) foram homens. Esse recorte, apesar de seguir a tendência quando se trata de suicídios, está acima da média nacional (77,78%). Para compreender o que leva tantos homens a esse desfecho, o Portal RSN entrevistou a médica residente em psiquiatria pela Escola de Saúde Pública de Florianópolis, Drᵃ Gabriela Ferreira Alfama.

PARADOXO DE GÊNERO

Segundo Gabriela, as estatísticas de Guarapuava comprovam um fenômeno conhecido na literatura médica como “paradoxo de gênero”: as mulheres tentam mais, mas morrem menos. Observando os dados do DataSus sobre lesões autoprovocadas (tentativas que chegaram ao sistema de saúde), nota-se a discrepância. De 2017 a 2024, em Guarapuava, houve 741 tentativas de suicídio por parte de mulheres e 348 por homens.

A explicação técnica reside na escolha do método e na impulsividade. Conforme a médica, os homens tendem a recorrer a meios de alta letalidade e irreversibilidade imediata.

“Essa escolha pelo método mais letal, somada a uma maior impulsividade no ato, reduz drasticamente as chances de resgate. Em regiões como a nossa, com forte ligação rural, o acesso facilitado a certos meios potencializa o risco.”

MASCULINIDADE

A médica parte da suicidologia crítica, vertente que entende o suicídio como fenômeno multifatorial, para afirmar que os dados refletem a construção cultural da masculinidade.

“Desde cedo, muitos homens são ensinados que a vulnerabilidade é sinônimo de fraqueza. O silêncio, nesse caso, não é falta de vontade, mas uma imposição cultural que isola o homem em sua própria angústia.”

Enquanto as estatísticas de tentativas mostram que as mulheres buscam o sistema de saúde (o que gera a notificação e permite o tratamento), o homem frequentemente interpreta o pedido de ajuda como uma falha.

FAIXA-ETÁRIA

Os números são maiores na faixa etária da população economicamente ativa, principalmente entre os jovens. De 2017 a 2024, o grupo de pessoas entre 20 e 29 anos foi o que mais registrou tentativas contra a própria vida em Guarapuava (333 casos notificados).

Essa também é uma das faixas etárias com maior mortalidade. A psiquiatra destaca que a saúde mental não pode ser tratada como algo descolado da realidade financeira. Em uma sociedade que cobra alta performance, muitos homens constroem sua autoestima sobre o pilar do “provedor”.

“Quando o cenário social oferece desemprego, endividamento ou instabilidade, esse homem pode vivenciar uma sensação de ‘morte social’ e encarar como um fracasso pessoal”, alerta a Dra. Gabriela. Segundo ela, a violência autodirigida também é um sintoma da fragmentação de vínculos sociais.

“A prevenção do suicídio, portanto, não se faz apenas em consultórios com medicamentos; é necessário que a vida tenha sentido e suporte para além da produção econômica. Isso exige políticas que garantam dignidade e fortaleçam o sentido de pertencimento desses indivíduos à comunidade.”

COMO BUSCAR AJUDA

A prevenção, de acordo com a médica, começa com o rompimento do isolamento. “Reconhecer o sofrimento e buscar ajuda é um ato de coragem. Essa ajuda pode vir através de uma escuta, de um apoio familiar, da comunidade, ou através da rede de saúde.”

O município dispõe de uma rede de apoio pelo Sistema Único de Saúde (SUS):

Atenção primária: As Unidades Básicas de Saúde (UBS) são o acesso oficial. As equipes são capacitadas para escutar, avaliar riscos e coordenar o cuidado.
Atendimento especializado: CAPS II: Rua Padre Chagas, 2568, Centro (Transtornos mentais graves).
CAPS AD: Rua Frei Caneca, 3456, Santa Cruz (Focado em álcool e drogas).
Emergência: Em caso de risco imediato, acione o Samu (192) ou procure as UPAs Batel, Trianon ou Primavera.
Apoio emocional: O CVV atende pelo telefone 188, e o projeto local Guarapuava Salvando Vidas (GSV) oferece escuta sigilosa.

A médica finaliza reforçando que o tratamento é multiprofissional e busca não apenas a intervenção com medicamentos, mas “a reconstrução dos vínculos sociais e afetivos que foram fragilizados ou rompidos pelo sofrimento”.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. @tdolvr

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