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SOBRE O DEBATE NA BAND

Lula não falou com o Brasil, Flávio apostou no confronto e a plateia deu um espetáculo lamentável

Lula desperdiçou a oportunidade de dialogar com o eleitor, enquanto Flávio preferiu explorar o desgaste do adversário

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
7 min de leitura
Flavio e Lula no debate da Band
Flavio e Lula no debate da Band

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, na Band, revelou mais do que o confronto entre dois candidatos. Expôs uma política que parece ter perdido a capacidade de conversar com quem está fora das trincheiras. Houve acusações, provocações e disputas pessoais. Faltou o essencial: compreender o eleitor que ainda procura razões para confiar em alguém. O problema não foi a ausência de propostas, mas a incapacidade de transformá-las em uma conversa convincente com o país.

Lula cometeu um erro político importante: não falou para o brasileiro. Falou para Flávio, respondeu a provocações, revisitou conflitos e permitiu que o adversário ajudasse a determinar o tom do debate. Em uma eleição apertada, precisava olhar para além da militância e alcançar o trabalhador endividado, a família preocupada com a violência, o eleitor decepcionado com a política. A experiência dele deveria ter sido instrumento de aproximação, não apenas de confronto. Lula discutiu com Flávio quando precisava conversar com o Brasil. Flávio, por sua vez, mostrou que assimilou a lógica da provocação como estratégia eleitoral.

Mas existe uma diferença entre desestabilizar um adversário e demonstrar capacidade para governar. A candidatura de Flávio ainda precisa resolver uma contradição: apresentar-se como alternativa enquanto depende politicamente da herança do pai. O sobrenome Bolsonaro garante identidade eleitoral, mas não substitui projeto, preparo ou independência. Flávio procurou atingir Lula; menos evidente foi a capacidade de convencer quem não pertence ao bolsonarismo.

A plateia foi um espetáculo lamentável à parte. Gritos, vaias, interrupções e provocações chegaram a paralisar a transmissão. A presença de Sergio Moro e Deltan Dallagnol nas primeiras fileiras permite outra leitura. Não se tratava apenas de convidados assistindo ao confronto. Havia ali símbolos de diferentes fases do antipetismo: a judicialização do combate à corrupção, a transformação em capital político e a comunicação provocativa das redes sociais. Reunidos no mesmo ambiente, ajudaram a compor uma mensagem visual para o eleitor. O curioso é que essa encenação também revela uma dependência da direita: para afirmar o futuro, continua convocando personagens e conflitos do passado.

Pablo Marçal, que participou da preparação de Flávio, também atuou na plateia com gestos e intervenções. O ambiente deixou de lembrar um debate presidencial e passou a reproduzir a lógica de uma torcida organizada. A liberdade de manifestação não dispensa civilidade, sobretudo de figuras públicas que deveriam compreender a responsabilidade dos próprios exemplos.

O mais preocupante é que a plateia acabou funcionando como metáfora do próprio país político. Cada grupo preocupado em constranger o outro, quase ninguém disposto a ouvir. A discussão sobre corrupção foi novamente conduzida como duelo de acusações; a segurança pública, como competição de firmeza. São questões sérias demais para serem reduzidas a instrumentos eleitorais. Enquanto os candidatos disputavam quem conseguiria produzir o maior desgaste, o brasileiro comum continuava esperando respostas práticas para problemas que não desaparecem depois da eleição.

Lula tinha a oportunidade de assumir a postura de quem governa e falar com autoridade, serenidade e perspectiva. Não conseguiu fazê-lo de maneira convincente. Flávio teve a chance de demonstrar maturidade para além da provocação, mas preferiu explorar o confronto. A plateia completou o cenário com uma demonstração constrangedora de intolerância política.

O debate da Band mostrou candidatos preocupados em vencer o adversário, enquanto o eleitor precisava descobrir quem seria capaz de governar o país. O Brasil não precisa de mais uma torcida vencedora. Precisa de um presidente que saiba falar também com quem não o aplaude.

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