Enquanto o país vive a efervescência do segundo turno das eleições presidenciais, a Câmara de Guarapuava anuncia, de um dia para o outro, a eleição da Mesa Executiva. A pressa não surpreende. Segundo relatos da política local, a fórmula atravessa gestões: primeiro se costuram os votos, depois se convoca a eleição. Para a oposição, sobra pouco tempo para reagir.
A história política da Câmara guarda episódios quase caricatos. Em uma eleição anterior, vereadores se isolaram numa casa no Alagado e apareceram minutos antes da votação, todos de terno preto e de mãos dadas. Uma cena digna de comédia política. Na reeleição de Pedro Moraes, em 2025, uma articulação controversa teria envolvido Nego Silvio, líder da bancada do prefeito, numa manobra relacionada a pedidos de votos que beneficiou Moraes.
Agora, há um vereador que aparece entre os votos mais disputados. Considerado por fontes políticas um dos mais suscetíveis a mudar de posição, ele estaria sob acompanhamento próximo da situação para evitar aproximações da oposição. Márcio Carneiro e Professor Pablo desistiram da disputa, enquanto o PT mantém Cris Wainer como candidata.
Entretanto, os 13 votos anunciados pelo grupo de Nego Silvio ainda precisam ser confirmados. Conforme relatos ao Portal RSN, há vereadores que se dizem traídos por Pedro Moraes e prometem dar o troco nas urnas.
PREOCUPANTE
Uma confidência feita ao Portal RSN expõe uma contradição ainda mais incômoda. Um vereador admitiu que, embora também se sinta traído por Moraes, não poderia contrariar um pedido do prefeito Denilson Baitala porque depende da Prefeitura para conseguir obras. O relato não comprova condicionamento por parte do prefeito, mas revela uma percepção preocupante de dependência. Desde quando obras públicas devem ser tratadas como favores políticos?
Nesse cenário, a atuação de Pedro Moraes merece um exame que vá além da habilidade de articular votos. Uma presidência exige coerência, equilíbrio emocional, diálogo, respeito aos compromissos e transparência. Os relatos de vereadores que se dizem traídos colocam em discussão a confiança construída durante a gestão.
Outro ponto envolve a possível manutenção das chefias administrativa, financeira e de gabinete, estrutura que, segundo informações de bastidores, remonta à gestão do falecido João Napoleão. A continuidade não caracteriza irregularidade. Mas, se os principais espaços de decisão permanecerem vinculados ao grupo de Moraes, cabe perguntar qual autonomia Nego Silvio terá para conduzir a Casa, se eleitor for. A caneta pode mudar de mãos. Resta saber se as decisões também mudarão de endereço.
SECRETARIAS MUNICIPAIS
A discussão também ganha outra dimensão com informações que circulam sobre possíveis negociações de secretarias municipais, incluindo o interesse atribuído a Pedro Moraes pela Saúde. A Prefeitura nega mudanças na pasta. Se cargos forem utilizados como contrapartida por votos, estará em questão a independência do Legislativo, cuja obrigação é fiscalizar o Executivo, não se subordinar a ele.
E não será surpresa se Pedro Moraes quiser dar o 'pulo do gato' e surgir como vice na chapa de Nego Silvio. Outra alternativa é a secretaria do Legislativo, cargo que lhe assegura quatro assessores. Mas vale lembrar que recentemente, sua residência pessoal e o gabinete da Câmara foram alvos de mandados de busca e apreensão do Gaeco/Gepatria, sob fortes suspeitas de corrupção apontadas pelo Ministério Público.
A ação ainda está em curso e o assunto teve repercussão nacional. Mas ainda há outra que encontra-se em instâncias superiores. Se confirmada. pode render até perda de mandato. Formar maioria é legítimo. O que merece questionamento é a repetição de eleições convocadas às pressas, os relatos de isolamento político e as possíveis negociações por espaços administrativos.
Se os votos estão garantidos, por que tanta urgência? E se a Câmara é independente, por que um vereador afirma depender politicamente do prefeito para conseguir obras? No fim, a sucessão de Pedro Moraes deixa uma questão que vai além da troca de comando: a Câmara está escolhendo um novo presidente ou apenas reorganizando os mesmos espaços de poder?
A resposta estará menos no resultado da votação e mais na autonomia de quem assumir. Afinal, mudar o ocupante da cadeira é simples. Difícil é demonstrar que, junto com ele, também mudaram as práticas políticas.