No Dia da Consciência Negra e no ano todo a luta é por igualdade racial

A escolha pelo dia se deu em alusão ao dia da morte de Zumbi dos Palmares. Zumbi é um símbolo da luta contra o racismo e a escravidão

No Dia da Consciência Negra e no ano todo a luta é por igualdade racial (Foto: Reprodução/Geledes)

O Dia da Consciência Negra é comemorado em todo o Brasil nesta sexta (20). A data é uma das mais importantes e significativas do calendário. Isso porque reúne iniciativas que devem estar em andamento o ano todo para combater o racismo. Além disso, a data pede pela valorização da cultura e da religiosidade afro-brasileira.

A escolha pelo dia 20 de novembro se deu em alusão ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares. Zumbi é um símbolo da luta contra o racismo e a escravidão.

No entanto, nessa quinta (19), dia que antecedeu o Dia da Consciência Negra, um homem negro de 40 anos foi assassinado em uma unidade do supermercado Carrefour. João Alberto Silveira Freitas foi morto na zona norte de Porto Alegre. O fato reafirma o que a cantora, compositora e militante Elza Soares canta na música ‘A Carne’.

A carne mais barata do mercado é a minha carne negra. Que fez e faz história segurando esse país no braço. O cabra aqui não se sente revoltado, porque o revólver já está engatilhado. E o vingador é lento, mas muito bem intencionado. E esse país, vai deixando todo mundo preto, e o cabelo esticado. Mas mesmo assim ainda guardo o direito de algum antepassado da cor brigar sutilmente por respeito, brigar bravamente por respeito, brigar por justiça e por respeito. (A Carne – Elza Soares).

CONSCIÊNCIA NEGRA

As características dos negros como a cor da pele, lábios grossos e nariz largo representam o Brasil e o povo brasileiro. Entretanto, se tornam excludentes por aqueles que não conseguem conviver com as diferenças. Logo, as diferenças que são características do Brasil, um país de pessoas miscigenadas, das múltiplas culturas.

Para a jovem universitária Milena Victória, o Dia da Consciência Negra diz respeito justamente à questão de lembrar a importância dos brasileiros terem uma consciência sobre a percepção histórica e cultural que os negros têm deles mesmos. “É uma data pra relembrar e reforçar a importância da palavra liberdade, que significou tanto pra nossos ancestrais e ainda pra nós mesmos. Acho que a consciência negra não é um dia a ser somente visto como comemoração. Mas sim uma reflexão, tanto de nós negros, mas principalmente de pessoas brancas. É necessário entender e reconhecer seus privilégios”.

Milena é estudante de jornalismo em Guarapuava (Foto: Marília Krüger)

Para Milena o mais justo, não apenas hoje. Mas diariamente, é que a sociedade comece a descontruir os pensamentos, falas e ações de cunho racista. E, principalmente a discussão deve ser feita todos os dias. “Nós negros não vivemos e resistimos um dia, mas sim uma vida toda”.

Além disso, Milena ressalta que as pessoas negras passam pelo próprio reconhecimento. Ela conta que na escola sempre foi a ‘moreninha, mulatinha ou a indiazinha”. Assim, sofria pressão estética para se enquadrar em um padrão que determinava cabelo liso como bonito e ‘bom’.

Demorei muito para entender que desde os nove anos eu sofria uma objetificação e hiperssexualização do meu corpo. Eu tinha vergonha porque os meninos da minha sala faziam comentários maliciosos. Isso dificultou a aceitação dos meus traços, principalmente do meu nariz.

A jovem comenta que na infância a falta de representatividade nos brinquedos também distorcia a visão sobre si. “Eu tive uma Barbie branca e um boneco bebê negro, mas eu tinha uma ‘afinidade’ maior com o boneco. Eu queria me ver, me reconhecer”. Em 2017, Milena passou a buscar mais conhecimento sobre a ancestralidade e decidiu usar trançar e ‘dreads’. Foi quando os comentários inconvenientes começaram. “Perguntavam se aquele era meu cabelo, se não fedia e se eu conseguia lavar meu cabelo. Um dia me falaram que era coisa de gente porca. Tinham até algumas pessoas que queriam tocar”.

Na universidade já ouvi comentários que nunca pensei em ouvir. Uma vez uma menina me olhou (eu estava sem as tranças), disse que eu ficava bem melhor com meu cabelo natural. Ela disse que eu parecia mais limpa. Eu nunca vou esquecer disso porque me cobro por não ter conseguido me defender ou retrucar. Essas são pequenas coisas que só quem vive na pele consegue sentir como realmente é.

Outra situação que marcou Milena é a de alguns colegas de escola afirmando que cota era esmola, que desmerece negros. Ela comenta que isso a marcou por sentir que precisava lutar pelos direitos e que desmerecer as cotas é uma forma de tentar apagar os negros. “Cota nunca foi e nunca será esmola. As cotas são necessárias porque durante mais de 400 anos negros foram escravos. Temos consequências que batem até hoje. E é nas costas de nós, negros, que batem e arrancam muita coisa. As cotas vem como uma resposta e tentativa de tentar ao menos reparar as consequências do racismo e da escravidão. Cota é reparação histórica”.

DE BENIN PARA O BRASIL

Orence é nutricionista em Curitiba (Foto: Arquivo pessoal)

O jovem nutricionista Orence Couthon veio de Benin (África Ocidental) para estudar em Guarapuava. Assim, se formou e decidiu morar em Curitiba. Ele conta que a decisão não foi fácil, mas que não queria perder a oportunidade. Após muita conversa com os familiares, ele decidiu ‘embarcar’ na experiência.
De acordo com Orence, quando chegou ao Brasil ele ficou em Brasília antes de viajar para Guarapuava. Na capital brasileira, ele e alguns amigos passaram por várias situações de racismo. “Eu não falava bem o português, quando a gente ia no ponto de ônibus as pessoas se afastavam. Quando entrava no ônibus e sentava em um banco ao lado de alguém, levantavam”.
Conforme o jovem, no Paraná ele enfrentou outra realidade, com mais recepção e muitas amizades. Mas, ainda alerta que o Dia da Consciência Negra é importante para que as pessoas não tenham atitudes preconceituosas.

É a história dos nossos ancestrais, do que eles passaram e do que a gente passa. Somos todos iguais, temos uma cultura rica. É muito triste que as pessoas tenham práticas racistas e quando você reclama, falem que é mimimi. Precisamos estudar, conhecer e principalmente lutar todos os dias. Nós não reclamamos sem motivo.

Professora doutora Raquel (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

A professora doutora Raquel Terezinha compartilha desse mesmo pensamento. Para ela é preciso refletir sobre a luta, sobre a situação do negro no Brasil e no mundo. “A gente passa por situações de racismo e preconceito sim. Temos problemas gravíssimos e precisamos de uma educação étnico racial. Precisamos entender o que é o racismo estrutural, como ele está inserido na sociedade. Hoje eu quero falar para os jovens, que é possível chegar lá, onde você quiser. Eu sou professora doutora e me sinto realizada e quero que vocês saibam que também podem”.

Eu quero que os meninos e meninas olhem os professores negros como referência. Nós estamos aqui passando por dificuldades, mas também estamos aqui para acolher vocês. Só a educação pode mudar o mundo, pode transformar as pessoas. Então, saibam que quando um negro sobe, todos os negros sobem juntos. Portanto, nesse momento é isso que eu quero dizer: lutem pelos seus direitos e pela sua educação.

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