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ELEIÇÕES

O corpo também falou: tensão, confronto e ironia no debate da RPC

Postura, gestos e reações expuseram estilos distintos de liderança, confronto e capacidade de adaptação entre os candidatos

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
8 min de leitura
O corpo também falou: tensão, confronto e ironia no debate da RPC

Em debate eleitoral, palavra importa. Mas televisão tem uma crueldade particular: ela mostra também aquilo que o discurso tenta esconder. O enquadramento pega a mão, o maxilar, o sorriso que não vem, o corpo que avança, o candidato que relaxa e aquele que parece estar pronto para uma briga desde o primeiro minuto.

No debate da RPC desta terça (29), Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho não apresentaram apenas propostas diferentes. Apresentaram também três formas muito distintas de ocupar o palco. A cobertura do encontro registrou que os confrontos mais intensos ocorreram principalmente entre Moro e Sandro, enquanto Requião chegou a observar um desses embates sorrindo e classificá-lo como um “ringue divertidíssimo”.

Mas quem quer governar um Estado como o Paraná precisa entregar muito mais do que boas frases e um plano de governo bem diagramado. Precisa demonstrar liderança, domínio dos assuntos, capacidade de ouvir, reagir sob pressão, negociar, mudar de estratégia quando necessário e, principalmente, conhecer o território que pretende administrar.

O debate foi interessante justamente porque colocou Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho num ambiente em que essas características apareciam não apenas nas respostas, mas também na forma como cada um ocupava o palco.

MORO NÃO FUGIU ÀS GAFES

Sergio Moro entrou atacando e, durante boa parte do debate, manteve uma postura que reforçava essa impressão. Corpo rígido, mãos frequentemente fechadas, punhos cerrados e pouca variação facial criavam a imagem de um candidato em permanente posição de confronto. Não é possível afirmar o que ele sentia apenas pela linguagem corporal, mas o efeito televisivo era claro: Moro parecia sempre pronto para partir para o ataque, ou responder ao próximo. Faltava leveza, transição e aquele jogo de cintura que permite a um político alternar firmeza, escuta, ironia e aproximação sem parecer preso a um único registro.

A campanha parece ter percebido outras vulnerabilidades e feito um grande trabalho de preparação. Moro chegou mais disciplinado para falar do Paraná, com referências locais organizadas e ataques estruturados.

Ainda assim, a blindagem não impediu gafes: ao tratar de educação, disse “alfebetização” e, em outro momento, chamou os paranaenses de “paraenses”.

Pode parecer detalhe, mas ganha peso quando ocorre com um candidato que precisa demonstrar intimidade com o Estado que pretende governar.

Há também um problema de presença. Moro parecia excessivamente preocupado em permanecer dentro do roteiro. Pouca mudança de expressão, quase nenhum humor e respostas quase sempre no mesmo tom reforçavam a sensação de confronto permanente.

Um governador, porém, não administra apenas situações de ataque. Precisa negociar com prefeitos, Assembleia, servidores, empresários e grupos com interesses distintos. Saber enfrentar é importante; saber sair do enfrentamento também é.

SANDRO ALEX SABE O QUE FAZ

Sandro Alex apresentou quase o problema inverso. Estava mais à vontade no embate, gesticulava, reagia às provocações e usava melhor o espaço. Demonstrava familiaridade com a lógica política e com os assuntos estaduais que escolhia abordar. A postura era mais expansiva e o corpo acompanhava o discurso. Isso favorecia a imagem de alguém acostumado à negociação e ao confronto, mas havia excesso: em vários momentos, ganhar a discussão parecia competir com a necessidade de explicar propostas ao eleitor.

Sandro Alex demonstrou saber que também pesa quando se pensa no perfil de quem pretende comandar o Palácio Iguaçu. Liderança não é apenas avançar. É também saber quando reduzir o tom, escolher a briga certa e preservar a capacidade de diálogo. Sandro mostrou energia e jogo de cintura, mas por vezes permitiu que o duelo com Moro ocupasse espaço demais.

REQUIÃO USOU IRONIA

Requião Filho percorreu um terceiro caminho. Foi corporalmente mais solto, variou expressões e usou ironia. Quando Moro e Sandro mergulhavam no confronto, muitas vezes preferia observar antes de entrar. Isso lhe dava contraste e naturalidade, mas também trazia risco: em determinados momentos, parecia comentar o debate em vez de comandá-lo.

Talvez essa seja a leitura mais interessante da noite. Moro projetou disciplina e disposição para o ataque, mas também rigidez e pouca elasticidade. Sandro mostrou desenvoltura e capacidade de reação, mas exagerou na intensidade. Requião apresentou leveza e leitura de ambiente, mas nem sempre protagonismo.

Governar o Paraná exigirá justamente uma combinação mais difícil: firmeza sem postura permanente de combate, autoridade sem rigidez, escuta sem passividade e jogo de cintura sem transformar política em espetáculo.

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