O último debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), nesta sexta (23), na TV Globo, ocorre em um cenário de disputa acirrada, no qual conquistar novos votos pode ser mais difícil do que administrar a rejeição. Com pesquisas indicando equilíbrio entre os candidatos, o confronto será decisivo sobretudo para o eleitor que não se identifica plenamente com nenhum dos dois. Mais do que mobilizar suas bases, ambos precisam demonstrar capacidade de dialogar com quem ainda tem dúvidas.
Lula chega com as vantagens e os desgastes de quem governa. Pode apresentar realizações, mas precisa responder pelas dificuldades na economia, na segurança e no custo de vida. A experiência não o desobriga de prestar contas. Flávio, por sua vez, precisa demonstrar que representa uma alternativa concreta de governo, e não apenas a continuidade do capital político do pai. Criticar o adversário pode render votos, mas não substitui propostas.
O debate anterior, na Band, expôs os limites das estratégias adotadas. Flávio apostou na ofensiva, correndo o risco de confundir firmeza com agressividade. Lula, em alguns momentos, pareceu mais preocupado em responder aos ataques do que em apresentar soluções. Para os dois, insistir apenas no confronto pode reforçar a fidelidade dos apoiadores, mas afastar justamente o eleitorado que precisam conquistar.
O acordo anunciado para a abertura de sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos candidatos e familiares acrescenta tensão à disputa. O episódio coloca a transparência no centro da campanha, mas também evidencia o risco de transformar suspeitas em armas eleitorais. Sem informações comprovadas, a discussão sobre integridade pode produzir mais desgaste político do que esclarecimento público.
Outro desafio é escapar da lógica das redes sociais, onde uma provocação costuma repercutir mais do que uma proposta. O país precisa de respostas sobre emprego, saúde, segurança e equilíbrio das contas públicas. Entretanto, a polarização frequentemente transforma o debate em uma competição por frases de efeito, esvaziando a discussão sobre os problemas reais da população.
O confronto da Globo será, portanto, um teste de maturidade política. Lula precisa demonstrar que sua experiência oferece respostas para o futuro. Flávio terá de provar que seu projeto vai além do antipetismo e do sobrenome Bolsonaro. O vencedor poderá dominar as manchetes, mas a verdadeira liderança será medida pela capacidade de governar um Brasil que continuará dividido depois das urnas.