A Igreja Católica voltou a ocupar espaço no debate público ao defender a soberania nacional. Em mensagem recente, a CNBB reafirmou a importância de um Brasil livre, soberano, democrático e comprometido com a Constituição e as instituições.
A defesa da soberania também apareceu em manifestações de lideranças religiosas, diante das tensões envolvendo o Brasil e interesses estrangeiros. O discurso reforça a ideia de que decisões sobre o futuro do país devem ser tomadas pelos brasileiros, sem interferências externas.
A CNBB tem lembrado algo que deveria ser óbvio: Igreja não é partido e Evangelho não é programa eleitoral. Para os bispos, a fé cristã deve orientar-se pela dignidade humana, solidariedade e bem comum. Em mensagem para as eleições de 2026, a entidade reafirmou que não indica candidatos nem partidos.
A advertência não acontece por acaso. A própria CNBB já criticou líderes religiosos que transformam fiéis em massa eleitoral, afirmando que a missão de uma liderança espiritual é formar consciências, não substituí-las. Quando o púlpito começa a dizer em quem o fiel deve votar, o Evangelho corre o risco de virar cabo eleitoral. E que é pior: Deus, argumento de campanha.
No meio evangélico, essa relação entre religião e poder ganhou expressão organizada no Congresso. A Frente Parlamentar Evangélica existe oficialmente para propor mudanças legislativas relacionadas, entre outros pontos, à liberdade religiosa. É uma atuação legítima dentro da democracia. Mas também significa que convicções religiosas organizadas passaram a disputar diretamente o conteúdo das leis que valem para crentes e não crentes.
NOSSA SENHORA APARECIDA
Um episódio ajuda a revelar as contradições desse debate. Em 2007, o então deputado Victório Galli (PMDB) apresentou o PL 2.623 para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “Padroeira do Brasil”, deixando-a como padroeira dos brasileiros católicos. A justificativa recorria justamente ao Estado laico: segundo o texto, o Brasil não deveria ter este ou aquele padroeiro.
A história ganhou um detalhe difícil de ignorar. Em 2015, Galli apresentou outro projeto, desta vez para instituir o Dia Nacional da Igreja Assembleia de Deus. A proposta acabou devolvida pela Câmara, mas a comparação permanece politicamente incômoda: se a laicidade é argumento para retirar do Estado uma referência católica, por que buscar depois o reconhecimento estatal de uma denominação evangélica?
ESTADO LAICO
É nesse ponto que o Estado laico brasileiro parece sofrer de uma estranha elasticidade política. Para alguns, a separação entre religião e Estado é invocada com rigor quando se trata da fé alheia. Mas quando entram em cena símbolos, interesses ou pautas da própria tradição religiosa, essa mesma fronteira pode parecer bem mais flexível.
O problema não é o evangélico participar da política. É usar autoridade espiritual como capital eleitoral e tentar apresentar convicção religiosa particular como obrigação pública. O Evangelho de Jesus, segundo os próprios bispos, fala de dignidade, solidariedade e bem comum. Não de transformar fiéis em curral eleitoral.
Nenhuma Igreja deve ser silenciada, mas nenhuma deveria receber licença para sequestrar a consciência do eleitor. Num país verdadeiramente laico, Deus pode estar na fé de cada cidadão; o que não deveria acontecer é Seu nome servir como procuração para quem deseja poder político.