O piano não silenciou. Apenas perdeu as mãos que sabiam fazê-lo sambar. Benito di Paula partiu aos 84 anos, neste domingo (18), em São Paulo. E, com ele, despede-se um daqueles artistas que nunca precisaram caber nos padrões para alcançar a eternidade.
Benito era uma deliciosa afronta às convenções. Cabelos longos, anéis, colares, uma extravagância quase aristocrática e a alma de quem conhecia a poesia das esquinas. Sentava-se ao piano como quem chegava a uma roda de amigos. E fazia das teclas um tambor, um confessionário, uma festa.
A crítica, por vezes, torceu o nariz. Chamou sua música de sambão-joia, como se a popularidade fosse um defeito e a emoção precisasse de autorização intelectual para existir.
Mas Benito tinha algo que não se aprende nos conservatórios: sabia conversar com o coração do povo.
Em “Retalhos de Cetim”, costurou as sobras de tantos amores. Em “Charlie Brown”, encontrou um Brasil que sorria, dançava e sonhava. A música dele tinha a rara elegância de não precisar parecer sofisticada para ser extraordinária.
Talvez essa tenha sido a pequena revoluçã dele: provar que a arte não precisa escolher entre a beleza e o povo. Que um piano pode ter a cadência de um surdo, que a saudade pode dançar e que a simplicidade, quando verdadeira, é uma forma sublime de genialidade.
Benito partiu. Mas algumas ausências têm som. E enquanto alguém cantar um amor desfeito, recordar uma noite distante ou reconhecer a própria história numa melodia, as mãos desse artista ímpar continuarão percorrendo as teclas invisíveis da memória brasileira.
Afinal, quem transforma sentimentos em música não morre por inteiro. Apenas muda de endereço: vai morar dentro da saudade.