22/08/2023

Preconceito de Classe

Recebi do jornalista e amigo Carlos fernando Huf. Excelente artigo. Compartilho:

Por Carlos Fernando Huf
As pesquisas que revelam o elevado grau de aprovação do governo da chamada “era Lulo/Petista” (expressão criada pela minoria inconformada, com conotação pejorativa), desnudam um fenômeno que se repete no Brasil desde 1500: o desprezo dos habitantes da casa-grande em relação aos habitantes da senzala. Isto é, daqueles cuja riqueza depende exclusivamente do trabalho dos segundos.

Do tempo da casa grande x senzala para hoje, temos apenas uma diferença. Naquela época, os escravos produziam a riqueza apenas com seu trabalho, porque o seu consumo era mínimo – comida, trapos, e pés no chão – além dos eventuais açoites. Hoje, o trabalhador produz riqueza duplamente – tanto na ponta da exploração do trabalho como na ponta do consumo.

Com isso, a chamada classe A aumentou na mesma proporção suas fontes de crescimento. Enquanto os meios de produção de que dispõe continuam dependendo do trabalhador para multiplicar o capital, passaram a dispor também de um mercado consumidor em franco crescimento, o que deu início a um verdadeiro círculo virtuoso. Ou seja, passaram a lucrar nas duas pontas, a da produção e a do consumo.E em ambas tendo como fator preponderante, imprescindível, ainda e sempre, a desprezada classe “baixa”, que continua sendo considerada por alguns como ralé.

Tudo começou com a chegada ao poder, pela primeira vez na história desse país, de um brasileiro que não tinha nem título de doutor, nem galões de militar. Um homem da ralé, daquela massa cuja função era sempre, e apenas, a de entrar com o trabalho para a riqueza da minoria. Pior: um ex-pau-de-arara nordestino.

Desde que o metalúrgico, o primeiro real representante da maioria, chegou ao poder e colocou o ovo em pé, pela primeira vez o Brasil começou a sair do círculo vicioso da pobreza obrigatória, endêmica, com ares de maldição natural, de repetição eterna, como os dias e as noites, o sol e a chuva, o verão e o inverno.
Desde então todos vêm crescendo: pobres, médios e ricos. Os pobres a partir do Bolsa Família & Cia., a “fábrica de vagabundos”, e em seguida com paulatinas medidas de “desenrolamento” da economia, algumas amplas, as ditas macro, outras pontuais, acompanhando e driblando as armadilhas do “deus mercado”, especialmente o internacional, e mostrando como a economia é coisa simples, incompreensível apenas aos nossos economistas de TV e jornalões, os “pit-buls sem focinheira” a serviço dos patrões, na expressão de Mino Carta.
Tudo acompanhado de uma ampla reformulação da política externa, com medidas de interesse nacional, rompendo com o atrelamento automático e canino ao interesse dos EUA, e com isso diversificando os mercados de nossos produtos de exportação.
Os demais, médios e ricos – eureka! – também passaram a aumentar sua riqueza, através da equação: a partir do aumento do consumo da imensa maioria que antes nada tinha foi preciso aumentar a produção. E quem se beneficiou? A minoria que detém os meios de produção. Simples assim.
Mas as pesquisas de opinião ainda e sempre continuam apresentando algo como 8% de brasileiros que teimam em considerar o governo ruim ou péssimo. Só podem ser aqueles que, descendentes da casa-grande, mesmo com a casa cada vez maior, jamais vão admitir que isso se deve a alguém que veio da senzala para dar lições de sociologia e economia aplicadas – na contramão do seu “Príncipe dos Sociólogos”.
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BEM BRASIL – O uso dos bancos estatais pela presidenta Dilma para forçar os demais a baixar os juros indecentes (uma esperteza que nem Lula teve, ou a que não se dispôs) mostra mais uma vez a importância de o Estado manter mecanismos de controle do “deus mercado” predador.
Já Mailson da Nóbrega, ex-presidente do Banco Central neoliberal, numa edição recente da Veja logo após a medida de Dilma, assinou um artigo sob o indignado título: “O Prejuízo dos Bancos”. (Quase chorei pelos bilhões a menos no próximo balanço anual dos banqueiros). A casa-grande não se emenda.

Cristina Esteche

Jornalista

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