Ao resgatar manifestações antigas de Sergio Moro sobre o aborto no horário eleitoral, a campanha de Sandro Alex escancarou uma fragilidade estrutural que acompanha a trajetória política do ex-juiz. Ou seja: a constante oscilação de discurso ao sabor das conveniências do momento. A inconsistência sobre pautas morais não é um fato isolado, mas a síntese de um projeto político marcado por contradições sistemáticas.
A caminhada de Moro na cena pública revela uma notável capacidade de adaptação de princípios. Quando ainda vestia a toga e se dedicava ao ambiente acadêmico, como em trabalhos, a exemplo da tese e dissertação na UFPR, Moro analisava de forma técnica e moderada o papel do Judiciário na garantia de direitos.
Nesses textos, abordava decisões jurisprudenciais, como os precedentes norte-americanos sobre o aborto, sob uma ótica constitucional e teórica. Aí é que ele se mostrou favorável à interrupção da vida no ventre da mãe. Contudo, ao ingressar na política partidária em busca do eleitorado de direita, vestiu apressadamente o figurino de conservador inflexível, tornando o discurso frágil quando confrontado com os próprios registros acadêmicos.
POSIÇÕES AMBÍGUAS
Para o eleitorado paranaense, pautas morais não aceitam posições ambíguas. Ao relativizar ou adotar tom técnico sobre o aborto em declarações anteriores, Moro alimentou a percepção de que as convicções morais dele mudam conforme a plateia ou o cargo em disputa.
As ambiguidades do ex-juiz não se restringem à pauta de costumes. Da saída conturbada do governo Bolsonaro, com trocas graves de acusações, à tentativa de reconciliação para garantir espaço no campo da direita, o padrão de atuação demonstra um pragmatismo que frequentemente entra em rota de colisão com a narrativa do "homem de princípios inabaláveis".
No fim, o vídeo veiculado pela oposição cumpre um papel devastador: expõe que o principal adversário de Moro não é a propaganda dos oponentes, mas o próprio acervo de declarações passadas. Para o eleitor que busca firmeza ideológica, a incoerência do ex-juiz sinaliza que a metamorfose do discurso busca apenas agradar ao eleitorado do momento.