O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Globo revelou uma característica preocupante da eleição de 2026: a dificuldade de separar propostas, propaganda e informações incorretas. A necessidade de checagem jornalística durante os confrontos mostra como a precisão dos dados se tornou uma questão central para o eleitor.
Lula levou ao debate a experiência de quem já governou o país por vários mandatos, mas também o peso de responder pelos resultados da atual administração. Embora tenha apresentado realizações e defendido políticas de governo, algumas das declarações foram questionadas por verificadores. A experiência administrativa não elimina a obrigação de apresentar dados corretos e respostas sobre os problemas atuais.
Flávio Bolsonaro procurou explorar as dificuldades do governo, especialmente na economia e na segurança pública. São cobranças legítimas, mas as propostas também precisam demonstrar viabilidade. Ao repetir uma afirmação falsa sobre Lula e o roubo de celulares, entre outras, evidenciou como ataques políticos podem comprometer a qualidade da discussão.
A desinformação, entretanto, não começou nesta eleição. As campanhas de Jair Bolsonaro foram marcadas por episódios amplamente documentados, como a circulação de conteúdos falsos sobre o chamado “kit gay” e questionamentos sem fundamento sobre a segurança das urnas. Reconhecer esse histórico não significa ignorar erros ou distorções de outros candidatos. O compromisso com os fatos precisa valer para todos.
Também cabe uma crítica ao formato dos debates. Os candidatos fazem acusações, apresentam números e frequentemente encerram as falas sem demonstrar as fontes. A checagem posterior é indispensável, mas seria importante oferecer ao público informações verificadas durante a própria transmissão, sem comprometer a liberdade do debate.
A campanha de 2026 coloca frente a frente duas trajetórias políticas distintas, mas profundamente ligadas à história recente do país. Lula representa a continuidade de um projeto que já passou diversas vezes pelo poder. Flávio representa a herança política do bolsonarismo e a tentativa de apresentar uma alternativa ao governo. Ambos precisam demonstrar como as propostas responderão aos desafios econômicos, sociais e institucionais do Brasil.
O debate não deveria ser medido apenas pela capacidade de atacar o adversário, mas pela qualidade das respostas oferecidas ao eleitor. Às vésperas das urnas, a grande questão não é apenas quem venceu o debate, mas quando passamos a aceitar que a verdade precise correr atrás de cada discurso.
Neste domingo, o país escolherá o próximo presidente. Independentemente do resultado, permanece uma cobrança necessária: menos disputas sobre versões da realidade e mais compromisso com informações verificáveis, propostas consistentes e respeito à inteligência de quem vota. Portanto, a eleição termina. Mas a desinformação e a crise de confiança na política, infelizmente, não desaparecem com o resultado.