Uma relação de horror que se transformou em marco estadual

A morte de Tatiane Spitzner, que completa dois anos nesta quarta (22), se tornou um marco estadual no reforço de ações públicas em apoio às mulheres

Morte de advogada mudou o tom sobre a necessidade de debate a respeito da violência doméstica (Foto: Arquivo/RSN)

Hoje é um aniversário sem comemoração, sem festa, sem alegria, apenas um dia de conscientização de que a violência doméstica é rotineira, cruel e ocorre de forma silenciosa e diária. Nesta quarta, 22 de julho, completam dois anos da morte precoce e cruel da advogada Tatiane Spitzner em Guarapuava. O Ministério Público, na época do crime, concluiu que a advogada vivia uma relação servidão e horror psicológico ao lado do marido Luis Felipe Manvailer, que segue preso na Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG), onde aguarda júri popular.

Desse modo, o MP listou uma série violências que o réu praticava contra a mulher, relatados por testemunhas. Assim, conforme a denúncia, Luis Felipe “praticou todas as formas de violência familiar e doméstica contra Tatiane Spitzner”. O homem rasgava roupas usadas pela advogada compradas sem autorização e a tratava por apelidos humilhantes, como “bosta albina”, em referência à cor da pele.

Além disso, Manvailer obrigava a esposa a se responsabilizar por todos os afazeres domésticos, não permitia a contratação de serviço de diarista, e se recusava a ajudar na execução das tarefas. E ainda impedia, que ela fizesse uso do próprio salário. Além disso, conversas com uma amiga de Tatiane sobre o relacionamento do casal e a vontade de optar pelo divórcio, também foram anexadas ao processo.

O fato é que nas redes sociais a vida do casal era perfeita. Fotos demonstravam apenas o casal sorrindo e em clima de romance. Conforme o psicólogo Silvio Luiz Ortiz, comportamentos como este são comuns em agressores.

Ele não se mostra num primeiro momento, até o contrário, é atencioso e carinhoso mas ele evolui para situações de manipulação, dominação, possessividade e controle. E até mesmo mulheres com perfis independentes e fortes podem perder a autonomia frente ao processo lento e sistemático de casos de violência.

Nas redes sociais, casal aparentava vida feliz (Foto: Arquivo/RSN)

Ainda de acordo com o psicólogo, os perfis de homens agressores podem ser identificados em situações corriqueiras. “A pessoa começa a perceber que de algum modo o agressor vai cercando, podando, comprometendo a autonomia com coisas pessoais”.

Sobre a hipótese de que as agressões que acabaram com a morte da advogada, tivessem ocorrido somente na noite crime, o psicólogo afirma que não é possível afirmar. “Somente pelas imagens não é possível afirmar que aquilo era recorrente. Talvez pela contundência, talvez porque muitas vezes a agressividade física não começa de maneira intensa. Começa segurando braço mais forte, dando um empurrão, um puxão de cabelo, e evolui para situações mais críticas”.

Na última sexta (17), a Justiça determinou que o júri popular de Manvailer seja marcado. O réu vai responder por homicídio qualificado com uso de meio cruel e feminicídio, além de fraude processual.

Em todo o Estado manifestações contra a violência marcam o dia (Foto: Secom/Prefeitura de Guarapuava)

MARCO

O fato é que a morte de Tatiane se tornou um marco no assunto de violência contra a mulher em todo o Estado. Jovem, com carreira promissora, cheia de amigos, apaixonada por animais e pela família, ela teve a vida interrompida por uma relação injusta. O dia da morte da advogada foi instituído, em 2019, pelo governador Ratinho Junior como o Dia de Combate ao Feminicídio.

Em todo o Estado diversas ações marcam o dia de hoje (22). Em Guarapuava, logo nas primeiras horas da manhã houve uma exposição com serviços prestados à mulheres na cidade. Além disso, uma iniciativa de diversas secretarias estaduais caracteriza um o trabalho para adoção de um protocolo para investigar, processar e julgar com perspectiva de gênero as mortes violentas de mulheres.

Conforme dados da Procuradoria da Mulher do Paraná, em 2019, 89 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado. Por isso, no Dia de Combate ao Feminicídio houve reforço da campanha Nenhuma Mulher a Menos, de conscientização da população sobre a importância da denúncia de violências contra a mulher por meio dos telefones 180 e 181.

DEBATE

A Ordem dos Advogados do Brasil de Guarapuava (OAB) estará on-line pelo canal do YouTube a partir das 18h debatendo o limite entre o amor e o abuso. Entre os palestrantes estarão os psicólogos Susana Raurich, Silvio Luiz Ortiz e Camila Grande, que também é coordenadora do Cram de Guarapuava.

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