A invisibilidade esconde mulheres fortes e felizes em Guarapuava

Mulheres que vivem catando lixo reciclável para o sustento da família, dão uma verdadeira lição de empoderamento apesar da miséria em que vivem

A tarde estava nublada e a chuva avisava que poderia chegar a qualquer momento. A pauta decidida pelo Jornalismo do Portal RSN pedia uma reportagem especial sobre o Dia Internacional da Mulher. Porém, um convite para um Café da Manhã que homenagearia cinco catadoras de lixo reciclável na Associação de Moradores do bairro Xarquinho, em Guarapuava, ‘nos caiu como uma luva’.

Conforme a nossa linha editorial, sempre gostamos de trabalhar com invisibilidade social. E foi assim que eu, Cristina Esteche, e o editor do RSN, Gilson Boschiero, decidimos encarar o prenúncio de chuva e rumamos ao bairro. Em frente a sede da Associação estava o Everaldo Fogaça, diretor de Cultura da entidade e responsável pela biblioteca. Foi ele quem programou a homenagem.

O QUE ELAS PENSAM DA VIDA

A intenção era saber como se sentem essas mulheres, que acordam quando o dia nasce, fazem café – quando tem -, cuidam de filhos e saem em busca do ‘ganha-pão’. Sabem onde?  De acordo com que vimos e ouvimos, nos depósitos de lixo que se acumulam pelas ruas da cidades. Assim, as coisas que para outros são descartáveis, para elas e suas famílias é a sobrevivência diária. Portanto, elas catam para poder comer.

Conforme nos disse Everaldo, a nossa primeira parada foi na sub-sede da Associação, já que dona Zeili Maria Peres Goes, de 50 anos, seria a nossa guia. De acordo com a mulher que cuida de outras mulheres, a nossa primeira parada seria na casa da Silvana. Ela e a sogra trabalham com recicláveis há quatro anos.

O LIXO COMO CARTÃO DE VISITA

Já no espaço onde ela e outras famílias residem, amontoados de lixo são o cartão de visita. Aliás, essa é uma característica do bairro onde moram cerca de 20 mil pessoas.

Assim, encontramos a Silvana abaixada e selecionando a ‘feira’ do dia. Entre uma olhada e outra para o céu para ver se a chuva estava chegando, Silvana nos fala um pouco da sua vida.

Segundo Silvana, ela tem 30 anos de idade, casada, mãe de três filhos, Silvana é um exemplo. Porém, apesar da vida simples, sofrida, ela se sente realizada. Sabem por que? “Pelos três filhos que tenho”, responde.

SOU UMA PESSOA ALEGRE’

Um pouco à frente, uma senhorinha nos esperava sentada na escada em frente a casa. Os dois carrinhos cheios de lixo reciclável e mais uma grande quantidade no pátio eram as provas materiais de que a atividade é explorada pela família.

Porém olhando aquele cenário até certo ponto deprimente, onde seres humanos convivem com materiais descartados por outros, o início da nossa conversa com mais uma das homenageadas demorou um pouco mais.

É que num dos lados da residência, não menos humilde que as demais, dois cachorros latiam sem parar.

Enfim, quando conseguimos conversar, soubemos que se trata de dona Ilda Maria de Andrade, de 59 anos, casada e com três filhos. Conforme a mulher, ela mora há mais de 30 anos ali no Xarquinho e há seis anos ela busca, pela manhã, o dinheiro para comprar o que a família vai comer no almoço.

“Eu levanto às cinco horas da manhã todo dia. E se está chovendo eu trabalho do mesmo jeito. Eu gosto de trabalhar com reciclável. Sou uma pessoa alegre e por isso as pessoas gostam de mim. Sou uma mulher feliz”.

“SOU UMA MULHER FELIZ”

Assim, em outra casa, Jaqueline já nos aguardava na porta. Porém, tão logo abrimos o portão ela veio sorrindo ao nosso encontro. Como toda mulher, a vaidade falava mais alto.

Conforme nos disse Jaqueline, aos 33 anos de idade, casada, mãe de três filhos, ela nasceu e se criou no bairro. Após minutos e conversa descontraída e com muita risada, Jaqueline diz que é uma mulher feliz, realizada pelo esposo e pelos filhos que tem.

Assim, apesar da vida humilde que tem, Jaqueline á sinônimo de alegria, de vivacidade. “Ah! Eu sou assim e ando pelas ruas catando lixo sempre sorrindo, conversando com as pessoas”.

Entretanto, uma suas maiores preocupações é poder dar estudo para os seus filhos. “Quero que eles tenham uma vida não tão sofrida como a que temos. Quero que estudem e que tenham as oportunidades que nós não tivemos”.

DOR DE MÃE

Assim, o próximo compromisso seria na casa de dona Rosalina da Silva, 59 anos de idade. Viúva há 20 anos, e separada do segundo esposo há 18 anos, com três filhos e nove netos.

Entre todas as mulheres que conversamos, a vida de dona Rosalina é a mais doída. “Perdi o filho que me ajudava, que era o meu braço direito. Ele morreu com 30 anos”.

Entre um gole e outro de chimarrão, o olhar da mulher se perdia no horizonte, enquanto as memórias do cotidiano nos comoviam.

É ela, uma senhora franzina, marcada pelo sofrimento, que puxa dois enormes carrinhos cheios de lixo reciclável. Entretanto, são dois pesos e uma medida. “Dá para tirar uns R$ 300 por mês com mais R$ 90 que ganho do Bolsa Família, a gente vai vivendo”.

Esses R$ 90 são a única renda fixa que a mulher tem para dar de comer a ela, a sua filha e ainda ajudar uma outra. Somados aos R$ 300 da venda do reciclável recolhido, “quando dá”, a família tem uma renda de R$ 390 por mês. Mesmo assim, ela sonha poder ajudar a segunda filha.

“Essa outra filha mora lá no Residencial 2000 e sofre muito. Às vezes tenho que pedir uma cesta básica lá na igreja pra gente comer um pouquinho melhor”.

É impossível imaginar aquela mulher fraca de corpo consegue puxar os carrinhos enormes. “A gente acha força, cansa, mas é daí que vem pão né”.

SOLIDARIEDADE

No fim da tarde, quando começaram a cair os pingos de chuva, decidimos conversar com a nossa acompanhante. Dona Zeili, 50 anos, casada, dois filhos. É ela quem dedica o seu tempo cuidando de outras mulheres. “Eu mulher cuido de outras mulheres. São 35 famílias”.

Dona Zeili , que é vice-presidente da Associação, montou uma cooperativa e semanalmente ensina a elas atividades artesanais. “São mulheres sofridas, deprimidas. Então a gente conversa muito”.

REALIZADAS E FELIZES

Entretanto, em meio à uma miséria que ‘salta aos olhos’ e que se esconde na periferia do bairro, essas mulheres declaram que são felizes. Dizem que na ‘dureza’ do cotidiano não há espaço para a depressão, mágoas, ressentimentos. E ainda deixam mensagem de empoderamento a outras mulheres.

E foi assim, com a chuva batendo contra o vidro do carro, que eu e o Gilson chegamos à conclusão que a invisibilidade que ‘recheia’ a cidade esconde guerreiras, mulheres fortes, que fazem do quase nada que tem, o muito para encararem a vida.

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