“Apanhei, fui humilhada, caí no mundo das drogas, fui presa. E dei a volta por cima”

A guarapuavana Maryana conta os desafios de ser transsexual

José Marinaldo nasceu no Jardim das Américas, na periferia de Guarapuava. Desde pequeno ele e a família perceberam que o menino gostava mesmo era de usar as roupas da irmã. Os acessórios femininos o atraíam e já revelavam que o corpo de homem possuía uma alma de mulher. “Desde os seis anos de idade a minha família já sabia que eu não era menininho”, disse ao Portal RSN.

Era apenas o início de uma caminhada marcada pela discriminação, pelo ódio, pelo preconceito. “Comecei a sofrer bullying na escola durante muito tempo e não aguentei a pressão. Falei com o meu pai e acabei desistindo de estudar”.

De acordo com a Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (RedeTrans), a falta de acolhimento e respeito no ambiente escolar são motivos que levam ao abandono dos estudos. Cerca de 82% das mulheres transexuais e travestis abandonam o ensino médio entre os 14 e os 18 anos.

Mas a incorporação do ser mulher aconteceu mesmo aos 15 anos. “Fui embora para Florianópolis onde comecei a trabalhar como auxiliar de cozinha”, conta a agora Maryana. Porém, a marginalização da população trans traz como obrigatoriedade a prostituição como forma de sobrevivência.

As pessoas não aceitavam e acabei ganhando a conta. Para sobreviver nesse mundo desigual acabei me prostituindo durante 10 anos, tanto em Florianópolis como em Guarapuava.

(Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo Maryana, esse foi o pior período da sua vida. “Apanhei, fui humilhada, caí no mundo das drogas, fui presa”. Cansada dessa sobrevida, Maryana retorna a Florianópolis e vai trabalhar num dos mais conceituados restaurantes da capital catarinense. “As pessoas já estão aceitando mais as pessoas trans. Para alguns, o preconceito já não é grande”.

De acordo com Maryana foi nesse restaurante que ela encontrou o seu companheiro. “Ele é caminhoneiro e foi fazer uma refeição lá. Como eu já tinha acabado os meus afazeres fui no balcão conversar com o meu patrão. Ele me viu, foi até mim, e tempos depois estávamos namorando”.

Casada há três anos e morando em Guarapuava, no Residencial 2000, Maryana celebra o seu novo emprego. “Há quatro dias estou trabalhando numa das mais conceituadas padarias da cidade”.

Feliz por ter o seu pai morando com ela, Maryana, aos 33 anos de idade, entretanto, se diz frustrada por viver numa “sociedade desigual, que julga uma pessoa pela sua cor, pela posição social, pela orientação sexual. Sonho com o dia em que cada um vai cuidar de si, sem violência, sem mortes, principalmente de travestis e transexuais”.

Dados estatísticos mostram que o Brasil continua no posto de país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Segundo a  Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o número de vítimas da violência transfóbica em 2018  foi o maior no país nos últimos 10 anos.

Foram 179 travestis ou transexuais mortos no período. Isso implica dizer que a cada 48 horas uma pessoa trans é assassinada no país, segundo o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017.

SERVIÇO

Dia Nacional da Visibilidade Trans, criado pelo Governo Federal, comemorado todo 29 de janeiro, marca a luta dessa faixa população que, além de todo preconceito e violência sofridos diariamente, ainda reivindica direitos básicos como educação, saúde, trabalho, segurança e outras políticas públicas.

Em 2018, porém, o Ministério da Educação deu um passo importante ao homologar a autorização do uso do nome social de travestis e transexuais nos registros escolares da educação básica. A norma visa promover o respeito e minimizar as estatísticas de violência e exclusão escolar em função de bullying, assédio e discriminação.

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