Elas deixaram o conforto de casa para serem voluntárias fora do país

Cristina Esteche

Guarapuava – Duas jovens de Guarapuava deixaram o conforto de casa para um mergulho na solidariedade. Apenas com uma peça de roupa em cada mochila, Maria Clara Küster e Luana Rocha Hyczy, deixaram o país e seguiram rumo a Laos e Tailândia. Foram 30 dias de experiências, que ambas consideram como o maior aprendizado e contribuição para que se tornem pessoas melhores.

De volta pra casa, Maria Clara e Luana fazem um relato da aventura e prometem que essa não será a última. "Então, agora já voltamos pra casa. Ficamos quase um mês fora. Atendemos a um vilarejo na Tailândia, norte de Chiang Rai, e mais dois em Laos, onde passamos a maior parte do tempo. Um país maravilhoso, com uma cultura surpreendente, e super afetado pela guerra do Vietnã”, conta Maria Clara à RSN.


 

Durante a estadia nos vilarejos, as duas jovens dormiam em casas de famílias que se disponibilizavam a hospedá-las. "Era 110% de imersão na cultura. Foram muitos dias dormindo praticamente no chão e trabalhando pesado. As costas choravam e, hahaha, o momento mais esperado era para sentar na van confortável a caminho de outro vilarejo”, diz Maria Clara.

 

Segundo elas, o trabalho comunitário era definido pelo head of the village, ou líder do vilarejo, juntamente com a organização da missão. "No primeiro vilarejo, o objetivo era construir uma capela ao lado do cemitério, para o governo liberar verba para o asfaltamento da estrada até o local. Era em cima de uma montanha, que tínhamos que escalar todo dia para chegar na construção. Meia hora de caminhada até lá, pela manhã e a tarde também, mas a paisagem e a natureza compensavam".

No segundo vilarejo, Maria Clara e Luana trabalharam na construção de uma parede de contenção e aterramento, para uma casa que estava prestes a desmoronar. "Durante o aterramento por exemplo, sempre achávamos cobras” quando cavando. Eles a matavam, e comíamos no jantar. A parte mais legal, era que toda comunidade participava. Eram filas enormes em que íamos passando os baldes, da fonte de origem até o lugar de aterramento. Era fácil de interagir, todos muito sorridentes, e querendo ajudar”.

No terceiro vilarejo, o trabalho foi na obra de uma escola que está sendo construída pela organização. O projeto já estava “quase finalizado, sendo que as aulas começam em setembro. Pintamos a escola, as salas, e construímos grades em volta da escola por causa de animais. É muito gratificante pensar que fizemos parte de um projeto que faz a diferença na vida das pessoas, e que podemos mostrar para eles que não estão sozinhos, e que tem muita gente disposta no mundo a ajudá-los".

Segundo Maria Clara, Laos é um país muito pobre e um dos mais afetados pela guerra. "Tivemos a oportunidade de não apenas conhecer, mas fazer parte e ajudar a população, ficar imerso na cultura, e viver como eles vivem".

Este era  justamente o intuito da viagem. O nome do programa é Come With Nothing, ou Venha sem Nada, ou seja, elas foram apenas com uma mochila nas costas, e uma muda de roupa. Por que? "Porque o objetivo é viver como eles vivem. Comprávamos roupas nos mercados municipais, entre um vilarejo e outro. Assim, não nos sentíamos diferentes [superior/inferior a eles] e também ajudaríamos a economia local".

Um outro desafio para as guarapuavanas foi o uso do celular e os animais. "Muitos lugares não tinham nem energia elétrica. Você acorda quando amanhece, com os galos cantando, e dorme quando escurece. Esta era nossa rotina, sem o uso da tecnologia, e totalmente presentes, o que não posso negar que foi maravilhoso", relata Maria Clara.

Mas as aranhas, sanguessugas e cobras assustaram. Segundo Maria Clara, as aranhas estavam em todos os lugares, principalmente nos banheiros, que eram casinhas fora da casa, quando elas à noite. "As sanguessugas quando tínhamos que atravessar rios a pé, elas sempre grudavam, e cobras na terra quando estávamos cavando, mas até isso acostuma, e no fim, acaba tudo sendo normal".

País exótico sempre tem uma culinária muito diferente para o paladar brasileiro. "A comida era simples, mas feita com muito capricho pelos locais. Sopas, arroz, frango e frutas era praticamente o principal de todas as refeições. Às vezes tínhamos uns pratos especiais, como cobra, caracol, cachorro, mas tudo acostuma”.

Apesar da diferença da realidade entre o que vivem em Guarapuava e a que encontraram fora do país, a experiência foi válida. "Acho que esta foi minha maior lição. Não existe bom ou ruim, bonito ou feio. Tudo vai de nossa crença, da nossa cabeça. Para eles fazer xixi em um buraco na terra, e tomar banho de caneca todo dia, por exemplo, é bom porque nunca tiveram algo melhor. E depois de um tempo você acostuma. Aceitar e lembrar do meu objetivo tornou tudo mais fácil”, diz Maria Clara.

“São em situações assim, que passamos a valorizar o que temos, que geralmente é muito mais do que o necessário. Mas acima de tudo, o que mais importa é que são muito felizes, independente de como se vestem, de seus bens materiais, de quão pesado trabalham. Apenas simplicidade, felicidade, amor e vida”, afirma.

De volta a Guarapuava, após a perda de muitos dias de aulas, Luana diz que agora o foco é recuperar a matéria perdida. "Mas não me arrependo nem um pouco, porque uma experiência assim não tem preço”.

Essa foi a sua primeira viagem com o  objetivo de trabalho voluntário, e com certeza não será a última.

"Pretendo ter muito mais experiências como essa no meu currículo, afinal eu tenho certeza, de que quem mais se beneficiou deste trabalho não foi a comunidade, mas eu mesma”.

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