22/08/2023
Mário Luchetta

A dormência institucional e o resgate do propósito

Historicamente, as grandes organizações civis, políticas e fraternas serviram como as vigas mestras que impediram o desabamento dos valores morais

Mario Luchetta (Foto: divulgação)

A força de uma nação é sustentada pela solidez de suas instituições. Historicamente, as grandes organizações civis, políticas e fraternas serviram como as vigas mestras que impediram o desabamento dos valores morais diante das intempéries do populismo e do imediatismo. No entanto, o Brasil de 2026 atravessa um período de perigosa dormência institucional. O que observamos é um esvaziamento sistemático dos princípios fundamentais que sempre deram sentido ao pertencimento a esses corpos sociais. As instituições, antes baluartes da ética e da estratégia, parecem ter perdido sua veia de protagonismo, permitindo que o vácuo de liderança seja ocupado por figuras desalinhadas com o propósito original.

Este fenômeno de “perda de alma” transforma organizações históricas em estruturas burocráticas que são um pouco de tudo e, lamentavelmente, muito de nada. Quando uma instituição abandona sua essência de atuação efetiva para se perder em querelas menores ou no silêncio obsequioso, ela abdica de sua responsabilidade com o futuro. Recentemente, um artigo de Marcelo Russo trouxe uma reflexão vital para o mundo corporativo que se aplica com precisão cirúrgica ao nosso cenário atual: “O silêncio do CEO é a nova omissão corporativa”. No contexto das nossas instituições, o silêncio dos seus dirigentes diante da erosão de valores não é neutralidade; é uma omissão que corrói a confiança e desorienta a base.

A omissão de quem deveria liderar é o convite para a mediocridade. Quando as lideranças institucionais calam-se perante o arbítrio ou permitem o desvirtuamento de suas bandeiras, elas entregam o espaço de decisão a quem não possui compromisso com o legado. É imperativo que os dirigentes assumam uma responsabilidade real, pautada por uma visão de futuro que transcenda o mandato passageiro. Precisamos de líderes que funcionem como verdadeiros ímãs, capazes de agregar e atrair outras lideranças de alta estirpe, revitalizando o ambiente institucional com coragem moral e preparo técnico.

A Maçonaria é um caso a ser observado. Instituição de grandeza inquestionável, cujos membros foram protagonistas dos momentos mais decisivos da nossa independência e da construção da República, a Maçonaria possui um legado de luz e progresso. O desafio atual dessa ordem secular é justamente um retorno ao protagonismo do passado. A grandeza da Maçonaria exige que suas colunas sejam sustentadas por homens que compreendam a urgência de agir sobre a realidade social e política, combatendo a dormência que por vezes se instala no seio das fraternidades. O mundo e o Brasil exigem que a Maçonaria volte a ser a vanguarda do pensamento e da ação, custe o que custar, pelo o que é certo.

A solução para a crise de representatividade e para o esvaziamento de propósitos não reside na repetição de fórmulas esgotadas. Fazer o mesmo nunca será o caminho para a mudança. O Brasil precisa, mais do que nunca, de instituições fortes, vigilantes e pulsantes. A restauração da ordem e da prosperidade depende de organizações que não tenham medo de afirmar seus valores e que rechacem a ocupação de seus espaços por quem está desalinhado com a grandeza dos desafios.

A transformação institucional é a premissa para a transformação nacional. Devemos exigir que nossas instituições — das entidades de classe às ordens fraternas — redescubram sua razão de ser. O tempo da dormência deve ser encerrado pelo despertar do protagonismo. É através de instituições revigoradas, lideradas por pessoas de visão estratégica para além de discursos enfadonhos, que construiremos o país de respeito e justiça que o povo brasileiro merece. A esperança é uma construção que exige instituições de pé e vozes que não se calam.

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Cristina Esteche

Jornalista

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