22/08/2023
Blog da Cris Política

Câmara de Foz do Iguaçu se move entre Curi e Guto

Honrarias em sequência a Curi e Guto expõem o jogo de cintura político de Foz do Iguaçu diante da disputa pelo comando do Paraná em 2026

Mesa Executiva da Câmara de Foz do Iguaçu (Foto: Divulgação)

Em menos de duas semanas, a Câmara de Foz do Iguaçu distribuiu duas mensagens políticas em forma de honraria. Em 27 de fevereiro, concedeu a Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, o título de Cidadão Honorário, por proposta da vereadora Anice Gazzaoui. No dia 10 de março, repetiu o gesto com o secretário estadual das Cidades, Guto Silva, em solenidade proposta pelo vereador Evandro Ferreira. Nada disso é irregular. Mas é, sim, eloquente. Ou seja: Foz decidiu não escolher cedo demais um único padrinho para 2026. Preferiu manter abertas as pontes com dois polos relevantes do campo governista.

GREGOS E TROIANOS

No plano simbólico, a cidade agradou os dois centros de gravidade do poder estadual. Portanto, os dois títulos têm peso institucional e também densidade eleitoral. Alexandre Curi preside a Assembleia Legislativa e vem tentando se apresentar como o nome da articulação, do municipalismo e da capilaridade política no interior. Guto Silva, secretário das Cidades, encarna outra linguagem de poder: a da caneta, da obra, do convênio, do investimento concreto que chega ao município e rende fotografia de entrega. Em Foz, portanto, o Legislativo municipal não homenageou apenas dois homens públicos; homenageou duas formas diferentes de influência dentro do governismo paranaense.

Alexandre Curi e vereadora Anice Gazzaoui (Foto: Câmara de Foz do Iguaçu)

É aí que a leitura eleitoral fica mais interessante, a julgar pelos pronunciamentos de ambos durante a caminhada. Se Curi fala como quem constrói uma candidatura própria dentro do grupo, Guto fala como quem reivindica a condição de herdeiro político mais orgânico da atual gestão.

NÚMEROS DA PESQUISA

Guto Silva recebe homenagem na Câmara de Foz do Iguaçu (Foto: Ascom/Câmara de Foz do Iguaçu)

A pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em 12 de março de 2026 ajuda a medir o tamanho da cautela da Câmara de Foz do Iguaçu. No levantamento espontâneo para o governo, Alexandre Curi aparece com 1,7% e Guto Silva com 0,9%, enquanto 75,9% dos eleitores dizem não saber em quem votar. Já no primeiro cenário estimulado, Curi marca 11,3% e Guto, 4,3%, atrás de Sergio Moro, com 44,0%, e Requião Filho, com 23,1%.

Mas no segundo cenário, sem Curi, Guto vai a 4,5%. No terceiro, sem Curi e sem Rafael Greca, chega a 5,5%. Os números mostram duas coisas ao mesmo tempo: Curi hoje aparece mais adiantado que Guto na lembrança e na intenção de voto para o governo. No entanto, o campo governista, como um todo, ainda está longe de apresentar um sucessor natural de Ratinho Junior já consolidado perante o eleitorado.

SABE O QUE ESTÁ FAZENDO

Mesa Executiva da Câmara de Foz do Iguaçu (Foto: divulgação)

Por isso, a Câmara de Foz agiu com o pragmatismo clássico de quem conhece a geografia do poder. A cidade não se deu ao luxo de romantizar a política. Ela acenou ao Palácio Iguaçu e ao Centro Cívico. Sendo assim, ao secretário com poder de investimento e ao presidente da Assembleia com capilaridade nos municípios. Em cidades que dependem de obras, repasses, agendas em Curitiba e boa interlocução institucional, títulos honoríficos deixam de ser apenas reconhecimento cívico. Passam a funcionar também como linguagem política. Foz, nesse caso, fez um movimento de proteção: prestigiou dois nomes, preservou canais e evitou apostar cedo em um único vencedor.

TIMING

A crítica, no entanto, é inevitável. Quando homenagens se acumulam no exato momento em que o calendário da sucessão começa a ferver, o risco é que a liturgia pública pareça menos tributo à trajetória e mais sinalização de conveniência. Não se trata de negar os serviços prestados por Guto Silva nem a influência institucional de Alexandre Curi. Trata-se de reconhecer que, em política, timing é mensagem. E o timing de Foz foi claríssimo: a cidade quer estar bem com os dois lados da mesma disputa. Não com a oposição e o governo, mas com as duas correntes de poder que orbitam a sucessão de Ratinho. É uma jogada de cintura eficiente e, ao mesmo tempo, reveladora.

No fim, Foz do Iguaçu mostrou que entendeu o momento melhor do que muitas Câmaras de cidades paranaenses e da própria capital. Enquanto o governismo ainda escolhe quem será o rosto em 2026, a Câmara local já decidiu que não ficará mal com nenhum nome forte. Ao homenagear Curi e Guto em sequência, o Legislativo iguaçuense não apenas celebrou biografias. Fez política no sentido mais cru, mais esperto e mais brasileiro da palavra.

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Cristina Esteche

Jornalista

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