22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava Política

O CNPJ também sangra no 1º de Maio

Também é preciso olhar para quem empreende, arrisca, contrata e sustenta negócios em um país que cobra muito, apoia pouco e ainda desconfia de quem gera emprego


Empreendedora cansada (Imagem gerada por IA)

Empreender no Brasil virou uma espécie de esporte radical sem patrocínio. Alguém abre uma loja, uma padaria, uma clínica, um salão, uma oficina, uma empresa de serviço, e descobre rapidamente que não basta vender bem. Precisa entender de tributo, alvará, fiscalização, legislação trabalhista. Também sobre banco, máquina de cartão, fornecedor, marketing digital, atendimento, inadimplência, concorrência desleal e humor do consumidor. O empreendedor brasileiro não administra apenas um negócio. Ele administra sustos.

E há uma solidão pouco comentada nesse lugar. O funcionário pode reclamar do patrão. O cliente pode reclamar do preço. O governo pode cobrar imposto. E haja imposto! O banco pode cobrar juros. O fornecedor pode reajustar. Mas o pequeno empreendedor, muitas vezes, não tem a quem reclamar. Se der errado, dizem que faltou gestão. Quando dá certo, dizem que teve sorte. Se contrata, é patrão. Quando demite, é vilão. Se trabalha domingo, é ambicioso. Quando fecha as portas, “não aguentou a pressão”. A sociedade gosta do emprego, mas desconfia de quem cria o emprego.

No 1º de Maio, portanto, também cabe lembrar que existe trabalho atrás do CNPJ. Existe madrugada atrás da luz acesa. Há ansiedade atrás da plaquinha de “estamos abertos”. Existe boleto vencendo antes do faturamento cair. Existe gente que não tira férias há anos para que outros possam ter salário no quinto dia útil. Afinal, nem todo patrão é grande capital. Às vezes, é só alguém tentando manter a empresa viva em um país que trata quem produz como suspeito e quem burocratiza como indispensável.

Isso não absolve maus empregadores, não relativiza direitos e não transforma exploração em virtude. Mas recoloca a conversa no lugar certo: trabalho digno também depende de empresas saudáveis.

Não existe emprego forte em negócio sufocado. Não existe salário melhor em economia travada. Não existe valorização do trabalhador sem respeitar também quem arrisca, investe, contrata e carrega o peso silencioso de fazer a roda girar. O 1º de Maio, visto pelo olhar do empreendedor, não é só o Dia do Trabalhador. É também o retrato de quem trabalha para que o trabalho dos outros continue existindo.

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Cristina Esteche

Jornalista

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