22/08/2023
Blog da Cris

O governismo do Paraná entra na fase mais delicada da sucessão

O clima no grupo governista é de tensão porque o problema já não é uma decisão isolada de Ratinho Jr, mas o silêncio em torno da sucessão

Governador Ratinho Junior (Foto: Jonathan Campos/ AEN)

O que paira hoje sobre o grupo governista no Paraná não é apenas dúvida. É tensão. E tensão de natureza política fina: aquela que nasce quando a liderança máxima continua ocupando o centro do poder, mas deixa de oferecer sinais claros sobre o futuro. É exatamente esse o ambiente criado em torno de Ratinho Junior.

O governador segue como a peça central do tabuleiro, mas o grupo à volta dele demonstra sinais de inquietação. O problema não está apenas no que ele decidiu ou deixou de decidir. O problema está no intervalo. Na política, o tempo vazio nunca é neutro. Quando o chefe não fala, cada aliado passa a interpretar gestos, medir distâncias, testar caminhos. E, sobretudo, desconfiar. É assim que nasce o mal-estar dentro das bases.

O almoço com deputados nessa segunda (23), em tom quase cerimonial, só ampliou essa sensação. Mais do que um encontro institucional, o gesto foi lido como um movimento carregado de simbolismo, mas desprovido de direção objetiva. Houve aceno, agradecimento, houve gesto político, mensagem emocional. O que não houve foi definição. E, em ambiente sucessório, afeto sem rumo não organiza tropa.

É por isso que o governismo entra numa zona delicada. Ratinho Junior é, sem dúvida, a maior liderança do campo governista. Mas liderança, nesse estágio do jogo, não se mede só por popularidade ou controle administrativo. Mede-se pela capacidade de arbitrar interesses, reduzir ansiedade e indicar um caminho. Quando isso não acontece, abre-se espaço para o crescimento de projetos paralelos, vaidades represadas e disputas silenciosas dentro da própria aliança.

QUAL É O NOME?

No fundo, o que inquieta deputados, partidos aliados e operadores do governo é uma pergunta simples: existe de fato um nome já escolhido e ainda não revelado, ou nem o próprio núcleo do poder chegou a um consenso? Essa dúvida é devastadora porque produz dois efeitos ao mesmo tempo. Para os aliados, gera insegurança. Para os adversários, transmite a imagem de que o grupo governista, apesar de forte, ainda não conseguiu transformar força administrativa em estratégia sucessória.

O silêncio de Ratinho Junior, nesse contexto, pode até ser calculado. Pode fazer parte de um método de concentração de poder, preservação de alternativas e contenção de pressões. Mas há um risco claro nessa tática: quando o comando demora demais a se manifestar, a espera deixa de ser disciplina e vira instabilidade. Ninguém gosta de ficar muito tempo defendendo um projeto cujo rumo nem sequer foi explicitado pelo principal condutor.

E há um componente ainda mais sensível. Toda sucessão exige, além de um nome, uma narrativa. Quem será o herdeiro? Em nome de quê? Com qual perfil? Para manter o quê e corrigir o quê? Até aqui, o grupo governista ainda não conseguiu oferecer uma resposta pública consistente a essas perguntas. Sem essa moldura, a base permanece junta apenas formalmente. Politicamente, já começa a revelar fissuras.

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Cristina Esteche

Jornalista

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