22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

O frio, a Copa e o Brasil que veste casaco

Em Guarapuava, o frio não chega. Ele toma posse. Entra pela fresta da janela, senta no sofá antes da gente, atravessa o cobertor como quem atravessa promessa de campanha

Frio na Morada da Lua (Foto: Orlando Silva)

Em Guarapuava, o frio não chega. Ele toma posse. Entra pela fresta da janela, senta no sofá antes da gente, atravessa o cobertor como quem atravessa promessa de campanha e ainda pergunta, com certa ironia: “vai sair assim mesmo?”. O guarapuavano conhece bem essa autoridade silenciosa do inverno. Aqui, temperatura baixa não é previsão do tempo; é personagem político, desses que mandam sem pedir licença.

E em ano de Copa do Mundo, o frio ganha outro uniforme. A cidade amanhece com geada, mas o coração do brasileiro insiste ainda em vestir verde e amarelo. No fundo, o país pode estar dividido em quase tudo, menos naquela fé meio teimosa de que, quando a bola rola, alguma coisa ainda pode dar certo.

A Seleção Brasileira entra em campo carregando mais do que chuteiras. Carrega saudade de títulos, desconfiança de torcedor, debate de bar, análise de comentarista e aquela cobrança nacional que nenhum ministro, governador ou prefeito gostaria de enfrentar. No Brasil, técnico de futebol governa sob pressão popular permanente. A escalação vira plebiscito. A substituição vira crise institucional. O gol perdido vira CPI na mesa do almoço.

Em Guarapuava, enquanto o vento corta a Avenida Guarapuava, na Cidade dos Lagos, e o povo se esconde dentro dos casacos, a política segue seu próprio campeonato. Tem quem prometa aquecer a economia, quem diga que vai pavimentar o futuro, e aquele que garanta que agora vai. Mas, como no futebol, o eleitor já aprendeu: discurso bonito antes do jogo não garante vitória depois do apito inicial.

A diferença é que, na Copa, ao menos o juiz apita. Na política, muitas faltas passam sem marcação.

Ainda assim, há algo profundamente brasileiro em assistir à Seleção num dia frio. A chaleira esquenta, o pinhão aparece, a televisão vira fogueira moderna e todo mundo, por noventa minutos, tenta acreditar numa ideia comum de país. Não um país perfeito, porque esse nunca entrou em campo. Mas um país possível, que ainda sabe se emocionar com um drible, reclamar junto, abraçar estranho em gol decisivo e esquecer, por um instante, o noticiário pesado.

RESISTÊNCIA TAMBÉM É CULTURA

O frio de Guarapuava ensina que resistência também é cultura. A gente aprende a sair cedo mesmo com neblina, a trabalhar com a mão gelada, a rir da própria desgraça térmica e a dizer “hoje tá feio” como quem comenta uma derrota de 7 a 1 da meteorologia. Talvez por isso a cidade entenda tão bem o Brasil: ambos vivem entre o desconforto e a esperança.

A Copa do Mundo, nesse cenário, vira uma espécie de lareira simbólica. Reúne gente que discorda de tudo, mas concorda que o lateral não pode cruzar daquele jeito. Aproxima quem briga por política, mas celebra o mesmo gol. Mostra que a camisa da Seleção, apesar de tantas disputas, ainda pode ser devolvida ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o peito do povo.

Porque a política passa. O frio também, embora em Guarapuava ele demore e às vezes pareça reeleito. Mas certas paixões ficam. Fica a infância de quem viu jogo com o pai. Fica a rua silenciosa durante o hino. O grito preso antes do pênalti. Permanece a certeza estranha de que o Brasil, mesmo tropeçando nas próprias pernas, sempre entra em campo achando que pode vencer.

E talvez seja isso que incomode tanto o frio: ele tenta endurecer tudo, mas não consegue congelar a esperança.

Em Guarapuava, quando a temperatura cai e a bola começa a rolar, o brasileiro se revela inteiro. Reclama do governo, do técnico, do juiz, do preço do gás, da zaga aberta e da vida. Mas coloca a água para o chimarrão, ajeita o cobertor, chama a família e espera o jogo começar.

No fim, somos todos um pouco assim: um povo de casaco, cachecol e fé. Com frio nos pés, política na cabeça e Copa do Mundo no coração.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Cristina Esteche

Jornalista

Relacionadas

A missão da RSN é produzir informações e análises jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e rapidez, seguindo princípios editoriais de independência, senso crítico, pluralismo e apartidarismo. Além disso, busca contribuir para fortalecer a democracia e conscientizar a cidadania.