As urnas de 2026 deixaram um recado menos elegante do que os marqueteiros gostariam, mas muito mais interessante: o eleitor não comprou a ideia de uma política pacificada. No Brasil, a disputa presidencial voltou a ser sugada pela polarização. Lula e Flávio Bolsonaro transformaram o primeiro turno em mais um capítulo da mesma guerra política que organiza o país há anos. Os demais candidatos quase desapareceram no caminho. Até o fim da tarde, a apuração mostrava Flávio à frente nas parciais nacionais, mas com a contagem ainda em andamento e sujeita a mudanças conforme entravam votos das diferentes regiões.
No Paraná, a história foi outra. Sergio Moro transformou notoriedade em voto. O fenômeno de Moro não foi crescer nas pesquisas, mas transformar uma liderança praticamente estável em voto. Enquanto Sandro Alex protagonizou a curva de crescimento da campanha, Moro mostrou capacidade de retenção eleitoral.
Sandro Alex protagonizou talvez a trajetória mais curiosa da eleição paranaense. Saiu de 5% na Quaest de abril, ganhou 20 pontos ao longo da campanha e chegou à reta final disputando a segunda colocação. Cresceu muito, mas começou tarde. O apoio de Ratinho Junior funcionou, só não funcionou como transferência automática. Governador popular ajuda, máquina partidária ajuda, prefeitos ajudam. No entanto, ninguém aperta o botão da urna pelo eleitor.
Requião Filho, por outro lado, confirmou que possui um eleitorado resistente e identificável, mas também encontrou seu teto. Passou a campanha praticamente no mesmo território eleitoral. Nem desapareceu, nem conseguiu produzir a onda necessária para romper a barreira dos vinte e poucos por cento. O sobrenome ainda pesa no Paraná, mas não resolveu sozinho uma eleição marcada por candidatos de alta exposição nacional.
O Senado foi onde a direita paranaense mostrou sua força com maior clareza. Filipe Barros e Deltan Dallagnol conquistaram as duas vagas, apesar de uma campanha em que conservadores estiveram espalhados entre vários nomes. Filipe chegou a cerca de 27% e Deltan a 25% dos válidos. E Deltan conseguiu algo politicamente raro: passou a véspera da eleição entre deferimento, indeferimento e recurso, acordou candidato novamente e terminou eleito. A urna decidiu uma parte da história; o plenário do TSE ainda terá a palavra sobre sua situação jurídica.
Talvez essa seja a ironia mais interessante do Paraná. Durante meses se falou em “direita dividida”. Estava dividida mesmo: Moro, bolsonaristas, Novo, Republicanos, PSD e lideranças disputaram espaço, voto e protagonismo. Só que divisão interna não significou necessariamente derrota eleitoral. O que vimos foi uma direita fragmentada na liderança, mas numericamente muito forte nas urnas. Isso é bem diferente de unidade e será importante observar quando começar a disputa por poder depois da eleição.
No Brasil, a urna repetiu uma verdade que muita gente prefere fingir que acabou: o país ainda está politicamente organizado em torno de Lula e Bolsonaro, mesmo quando Bolsonaro não está na urna. No Paraná, Moro mostrou força própria; no Senado, PL e Novo ocuparam espaço; e nacionalmente Flávio Bolsonaro demonstrou capacidade de herdar uma parcela expressiva do eleitorado do pai.
Por isso, mudar os nomes não significa mudar a estrutura. O primeiro turno de 2026 não enterrou a polarização. Pelo contrário: mostrou que, enquanto todos discutiam quem seria “a terceira via”, o eleitor continuava escolhendo entre os dois lados da velha avenida.