22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

A política da cruz!

Jesus não foi morto por pregar uma mensagem inofensiva. Jesus não foi morto porque falou de flores. Ele foi eliminado porque incomodava

Jesus na cruz (Foto: reprodução/ Freepik)

Há uma tendência recorrente de ler a trajetória de Jesus apenas pelo ângulo da espiritualidade, como se a história  d’Ele pudesse ser separada do tempo, das instituições e das disputas de poder que a atravessaram. Mas essa é uma leitura incompleta. A saga de Jesus também é política. E profundamente política.

Não no sentido partidário da palavra, mas no sentido mais concreto. Jesus confrontou hierarquias, expôs hipocrisias e desafiou estruturas que produziam exclusão em nome da ordem. O gesto dele de aproximar-se dos pobres, dos doentes, das mulheres, dos marginalizados e dos considerados indignos não era apenas religioso. Era uma ruptura com a lógica dominante daquele tempo.

Jesus não foi morto por pregar uma mensagem inofensiva. Jesus não foi morto porque falou de flores. Ele foi eliminado porque incomodava. A presença dele desestabilizava o arranjo entre poder político, autoridade religiosa e controle social. Ao denunciar abusos, ao criticar o uso da fé como instrumento de dominação e ao recolocar os vulneráveis no centro da cena, tornou-se uma ameaça para quem governava pela preservação dos privilégios.

A cruz, nesse sentido, não foi apenas um símbolo religioso. Foi também um instrumento de poder. Uma forma pública de punição, um recado violento contra tudo aquilo que ameaçava a normalidade da injustiça. Jesus não morreu por falar de abstrações. Nem porque falou de flores. Morreu porque a vida dele anunciava outra lógica. A de que a dignidade vale mais do que o controle. A compaixão vale mais do que o privilégio. E a verdade vale mais do que a conveniência.

Talvez seja justamente por isso que a história de Jesus continue tão atual. Porque ela revela algo que atravessa os séculos. O poder raramente reage bem àqueles que denunciam injustiças e rompem a normalidade da exclusão. Toda vez que alguém desloca o olhar para os esquecidos, a estabilidade dos privilégios se sente ameaçada.

O lado político da saga de Jesus está, portanto, na recusa em aceitar um mundo organizado pela desigualdade, pela violência e pela indiferença. A história não autoriza uma fé neutra diante da dor social. Ao contrário: ela lembra que espiritualidade sem compromisso com a justiça corre o risco de se tornar apenas conforto para consciências acomodadas.

No fim, talvez o maior incômodo de Jesus para o poder tenha sido este: ele mostrou que nenhuma ordem é legítima quando precisa sacrificar os mais frágeis para continuar de pé.

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Cristina Esteche

Jornalista

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