A transição de governo no Paraná, que começa neste dia 5, abre uma discussão que vai muito além da troca de informações entre Ratinho Junior e Sergio Moro. O que estará em jogo nos próximos dois meses é a construção de um novo centro de poder no Estado. Assim como a definição de prioridades e, principalmente, a capacidade do governador eleito de transformar a vitória nas urnas em um projeto administrativo consistente.
Há um aspecto pouco explorado nesse processo: Moro não herda apenas uma máquina pública, mas também uma rede de relações políticas, empresariais, institucionais e regionais construída ao longo de oito anos de governo Ratinho Junior. Essa estrutura não desaparece com a eleição. Prefeitos, deputados, secretários, fornecedores, dirigentes de órgãos e lideranças regionais precisarão entender como será a relação com o novo Palácio Iguaçu. A pergunta que se coloca é se haverá continuidade de influência, ruptura ou uma reorganização dessas forças.
O decreto estadual estabelece uma equipe de transição com até 20 integrantes, 10 de cada lado, e garante acesso a informações sobre contas públicas, contratos, programas, obras e compromissos que exigirão providências nos primeiros meses de 2027. Mas existe uma questão política importante: quem serão as pessoas escolhidas por Moro para examinar essa herança? A composição da equipe será o primeiro sinal de quais grupos terão acesso privilegiado à construção do novo governo.
Outro ponto que merece atenção é a distância entre o perfil de Sergio Moro como senador, ex-juiz e figura nacional da política e o papel de governador. Administrar o Paraná exige uma relação cotidiana com prefeitos, servidores, deputados, entidades de classe e setores produtivos. Não basta ter autoridade política ou experiência em Brasília. É necessário conhecer as particularidades de um Estado com regiões economicamente distintas, municípios de diferentes portes e demandas que nem sempre chegam ao debate nacional.
Os primeiros nomes anunciados para a Fazenda e a Educação indicam que Moro pretende dar sinais de perfil técnico à administração. Mas o verdadeiro desenho do governo ainda depende de escolhas em áreas como Segurança Pública, Saúde, Infraestrutura e Desenvolvimento Social. Também será necessário observar como o governador eleito pretende lidar com a Assembleia Legislativa e com o governo federal. A oposição política a Lula não pode se transformar em obstáculo para convênios, investimentos e políticas que dependem de cooperação entre Estado e União.
PREVENÇÃO
A postagem de Moro nesta segunda (2), manifestando solidariedade aos municípios paranaenses atingidos pelos temporais e afirmando que será reforçada a capacidade do Estado para enfrentar essas intempéries, também merece uma leitura além da manifestação de solidariedade. Marquinho, por exemplo, teve mais de 70% da população atingida pelos estragos, segundo a prefeitura. O episódio coloca na mesa uma questão que o próximo governo não poderá adiar: como preparar o Paraná para eventos climáticos cada vez mais severos? A resposta passa por prevenção, Defesa Civil estruturada, recursos para os municípios e planejamento de reconstrução.
O detalhe é que a transição também permitirá identificar quem realmente terá protagonismo no novo governo. Ou seja: os quadros técnicos, os aliados políticos, os nomes ligados à trajetória de Moro ou lideranças que ganharam força durante a campanha. Essa definição será tão importante quanto o organograma das secretarias. Afinal, um governo não se mede apenas pelos nomes anunciados, mas pela capacidade de tomar decisões, estabelecer prioridades e responder à sociedade
A partir do dia 5, começa uma fase em que Moro terá de mostrar não apenas como pretende governar, mas que tipo de relação pretende estabelecer com o poder político do Paraná. Ratinho Junior passa a preparar a entrega de uma estrutura que construiu e comandou por dois mandatos; Moro terá a responsabilidade de demonstrar que a vitória eleitoral representa também um projeto de Estado.
A transição, portanto, não será apenas a passagem de uma faixa de governo. Será a disputa pela definição de quem terá influência, quais interesses serão preservados e quais mudanças efetivamente chegarão à vida dos paranaenses.