Aborto e maconha, que caminho seguir?

Políticos e pesquisadores brasileiros avaliam com cautela os resultados obtidos pelo Uruguai com a discriminalização do consumo de maconha e a legalização do aborto. Para consumir a droga, vendida em farmácia, o usuário precisa fazer um cadastro que fica disponível para quem quiser acessar. O aborto também segue a mesma linha de publicidade pública.

O governo uruguaio constatou que era mais fácil liberar o uso da maconha do que ficar dando tiros atrás de traficantes. Enquadrou o drogadito como um dependente químico que necessita de tratamento e de consumo controlado de maconha. Passou a ser um caso, efetivamente, de saúde e não meramente de polícia. É melhor o viciado ser refém de políticas públicas que priorizem assistência adequada, do que ficar nas mãos de bandidos.

Aumentou o número de drogados tratando-se em clínicas e diminuíram os casos de morte e traumas físicos provocados por abortos em clínicas clandestinas. Obviamente que as religiões ofereceram toda sorte de resistência a que o Estado avalize um crime contra a vida humana, ainda que em forma de feto. Por outro lado, quais alternativas poderiam ser ofertadas para reduzir as mortes em gravidez indesejadas, se as mais conhecidas foram adotadas e o índice de traumas era crescente. Convém esclarecer que o aborto só é feito em último caso, depois de esgotadas todas as tentativas contrárias e com laudo pericial que o embase juridicamente.

Mesmo com todas essas medidas, o consumo de maconha e o aborto clandestino continuam no Uruguai. É fator cultural. O Uruguai é um país de tradição religiosa conservadora. As mulheres sentem-se intimidadas de comparecer a uma clínica pública admitindo que estão lá para fazer um aborto. Sabem que serão discriminadas, julgadas, hostilizadas. Preferem se arriscar num fundo de quintal, expostas a erros, lesões, bactérias.

Fumar maconha também tem suas implicações. Toda vez que alguém se alista para arrumar trabalho, o empregador manda consultar se o pretendente está no rol de drogados inscritos para adquirir o produto nas farmácias. Se o sujeito está na lista, é mais difícil conseguir o emprego. O dependente prefere ficar na ilegalidade a ser execrado publicamente.

O Uruguai conseguiu acender um debate sem dogmas e sem preconceito em torno das drogas e do aborto. Pôs o dedo na ferida que, no Brasil, já é uma gangrena.

 

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