22/08/2023
Cotidiano Thiago de Oliveira

Anúncios, poesia, romance ou ruídos. E Rio de Janeiro

Compre um, leve dois!

Ler na praia? Pura performance. Melhor a calmaria de um parque (Foto: Thiago de Oliveira/RSN)

Estava no banquinho de um parque de Guarapuava, folheando sem muita concentração uma antologia poética da Cecília Meireles, quando ouvi um rumor longínquo. O som foi se aproximando. Aproximando. Até ficar suficientemente perto para que eu pudesse distinguir as palavras. Era um anúncio. Ah, esses carros de som! Não há paz nem nos parques. Mas onde estava o bendito? As ruas ao redor estavam distantes para um som tão alto. Olhei para a frente, trás, lado, outro lado. Nada.

Olhei para cima: um avião, desses teco-teco, quase nem dava para enxergar o bichinho. Ele contava a mim e aos outros presentes naquele parque que o circo está na cidade. E que na compra de um ingresso você leva dois! Legal, o circo está na cidade, eu já sabia, passei na frente do Aterro do Lago, onde está montada a estrutura. Lembro de ter visto também em alguma rede social. Ah, tinha um ingresso à venda na recepção do campo de futebol society onde jogo. Ouvi na rádio, claro, o locutor até sorteou alguns bilhetes.

Vinha de cima, desta vez, o anúncio. Do céu. E atrapalhava a minha já desconcentrada leitura. A edição em questão, da Nova Fronteira, foi organizada pela própria escritora um ano antes de sua morte. O meu exemplar, comprado há alguns dias no Sebo Berinjela, no Rio de Janeiro, tem páginas brancas, manchadíssimas. Pudera, impresso em 2001!, ano em que nasci e em que se completava o centenário de Cecília. Pertencia a Paloma Oliveira este agora meu livro. Ao menos é o nome riscado na folha de rosto. Furtando as palavras de Antonio Carlos Secchin na contracapa, nele há versos organizados a partir de uma linguagem extremamente musical, desde o louvor às pequenas belezas do mundo até as indagações transcendentais sobre o destino humano.

Rio

Cecília é carioca. Manuel Bandeira morou e morreu no bairro de Botafogo. Comprei uma antologia dele também, na Feira da Glória. A banquinha tinha outros clássicos, peguei cinco. Quase não coube na mala.

Passei oito dias no Rio, quatro com chuva. No segundo dia de sol, fui à praia do Leme, onde há uma estátua da Clarice Lispector na mureta da orla. Passei a tarde folheando, também um tanto desconcentrado, a antologia da Cecília Meireles. Em ‘Viagem’, primeiro livro da coletânea, os poemas são melancólicos, noturnos, marítimos, com uma verve romântica que remete a Florbela Espanca. Pensei: estes poemas são, sobretudo, musicais. Entendi isso, mas não senti nada de mais. E fui me irritando com a leitura fragmentada que estava fazendo. Afinal, a cada cinco minutos passava alguém vendendo mate — maracujá, limão, geladão, gostosão! — e outros produtos. Paguei doze reais num biscoito Globo. Parei de ler e apenas me deixei estar ao ruído autóctone das praias cariocas, formado por, além dos marcantes slogans dos ambulantes, conversas internacionais, canções em potentes caixas de som e, claro, ondas quebrando.

Ir à praia do Leme, pré-Carnaval, pensando em ler um livro. Que palhaço. O que eu poderia esperar? É que no dia anterior, na Praia Vermelha, na Urca, numa nubladíssima quarta-feira, eu li uma centena de páginas do terceiro livro da tetralogia napolitana, História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante. Nada existia ao meu redor além de caudalosas, mágicas, hipnotizantes palavras do maior romance de formação do nosso tempo. Pensei que conseguiria a mesma experiência no outro dia. Não rolou.

De volta ao parque

Passado o aviãozinho, desisti da leitura e fui embora. Em casa, ouvindo o estrépito do trânsito do Centro, indeciso entre Ferrante, Bandeira e Meireles, retomei os mesmos versos que já tinha passado os olhos na praia e no parque. Página 69. “E minha avó cantava e cosia. Cantava / Canções de mar e de arvoredo, em língua antiga / E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos / e palavras de amor em minha roupa escritas.” Estremeci e parei novamente a leitura. Como assim? Que versos são esses, Cecília? Que devolvem, tão simplesmente, a poesia para o mundo — de onde ela foi subtraída. Li, reli. E decidi não continuar. Quis manter comigo o ritmo, a música, as acrobacias, o mundo que eles construíam. Estava exultante. Eu compreendia alguma coisa e alguma coisa me compreendia. Fui até a janela, respirei o ar relativamente úmido de uma tarde de verão normal em Guarapuava. Refleti por uns minutos. Peguei o celular para checar as mensagens e abri, por impulso, o Instagram. Apenas uma deslizada. No segundo post da timeline: o circo está na cidade! E na compra de um ingresso, você leva dois!

Ri aquele riso que é apenas um sopro pelo nariz e decidi escrever esta longa crônica somente para dizer — perdoe-me o malabarismo — que nunca fui ao circo.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. @tdolvr

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