Às vezes, o tiro sai pela culatra

Declarações feitas por Carli Filho à imprensa e mensagem em outdoor repercutem e provocam diferentes reações. Predomina a revolta

Por Cristina Esteche
Primeiro foi uma entrevista publicada em nível estadual mostrando um jovem que se volta à espiritualidade, que questiona a permissão recebida por uma energia superior na qual ele crê para que continuasse a sua missão neste plano. Uma missão que ele próprio diz desconhecer qual é. Depois foi a colocação de 20 outdoors em pontos estratégicos da cidade, cuja mensagem ao mesmo tempo em que ratifica essa tendência espiritual ao agradecer a Deus pela vida, é também de reconhecimento às orações supostamente feitas por populares e que pedem a sua recuperação.
É com estas mensagens midiáticas, inicialmente, com forte apelo emocional, que o ex-deputado Fernando Carli Filho surgiu na imprensa pela primeira vez após a tragédia que matou os jovens Gilmar Rafael Yared e Murilo de Almeida, e que o deixou ferido na madrugada de 7 de maio em Curitiba.
Até então a cidade e a opinião pública se “alimentavam” de informações extra-oficiais que chegavam em grande número pelo tradicional “boca-a-boca”, um método pouco confiável que vem embalado pela interpretação de cada receptor ou por pessoas estreitamente ligadas à Família Carli. Difícil também de interpretar, pois qual seria o interesse em “plantar” essas informações?
O fato mesmo surgiu pelo próprio Carli Filho já no início da semana quando na segunda-feira, dia 6, tornou pública algumas informações.
O cenário não poderia ser mais apropriado para as declarações do ex-deputado. O Santuário de Schoensttat, às margens da PR 170, nos remete ao paraíso, aquele que imaginamos pelas aulas de religião. Flores, árvores, pássaros, compõem o caminho que leva a esse espaço. Não faltam bosques e uma capela onde o silêncio impera e nos induz à reflexão.
Foi nesse local que Carli Filho recebeu, ou foi surpreendido por jornalista do jornal Gazeta do Povo, veículo de comunicação de grande circulação estadual.
O ex-deputado estava lá, sendo fotografado por sua assessoria. Memórias para o livro que pretende escrever, como anunciou o seu pai, o prefeito Fernando Ribas Carli, recentemente?
Disse que ocupa o seu tempo se recuperando dos traumas do acidente e também para refletir sobre qual deve ser a sua missão no mundo e por quais motivos Deus permitiu que continuasse vivo. “Foi uma bênção. Não foi à toa que fiquei aqui”, reconhece. Revelou também que deseja encontrar as famílias dos jovens mortos no acidente.
As declarações à GP provocaram a reação da família Yared.
Em Curitiba a empresária e pastora Cristiane Yared disse que o receberia por educação. Cristiane também revelou que até agora, passados 60 dias da tragédia que matou seu filho Gilmar e o amigo Murilo de Almeida, sequer recebeu um telefonema da família Carli.
A empresária declarou ainda que deseja que o ex-deputado cresça espiritualmente e se torne uma pessoa mais responsável. Entretanto, quando Carli Filho disse na entrevista à GP de que espera justiça, Cristiane afirma de que justiça para ela seria ter o filho de volta.“Mas sei que isso é impossível. Não tem como voltar atrás”, lamentou.
No dia da entrevista à GP, Carli Filho trajava calça de agasalho azul-marinho com listras brancas ao lado das pernas, jaqueta jeans e um gorro de lã preta na cabeça. Ainda está com o rosto inchado e sua aparência é bem diferente de antes do acidente. Quem conviveu com ele antes da madrugada de 7 de maio e o vê hoje pode dizer que não é a mesma pessoa.
As cicatrizes externas provocadas pela tragédia são bem visíveis e marcam o rosto, principalmente na região dos olhos. Ele vai ficar com o rosto perfeito, teria dito sua mãe, Ana Rita, a pessoas próximas durante uma festa junina que reuniu grupos da terceira idade há cerca de três semanas no Guaíra Country Clube.
Tudo é uma questão de tempo, ou melhor, o tempo é o senhor da razão, já disse o ex-presidente Fernando Collor de Melo antes de receber o “impeachment”. E tinha razão.
O ex-presidente está de volta ao cenário político nacional como senador da República. No caso de Carli Filho, como bem disse o seu pai, o prefeito Fernando Ribas Carli, ele tem somente 26 anos de idade e sofreu apenas um acidente.
As declarações do ex-deputado parecem ter surtido um efeito midiático favorável. Várias pessoas de diversas faixas etárias ficaram comovidas. “Infelizmente a gente aprende pela dor”, comentou uma senhora, que preferiu não ser identificada. “Sabe como é, Guarapuava ainda não é tão grande assim e a gente é muito conhecida”, justificou. “Mas continuo rezando por ele”, comentou, ante o sinal de aprovação da amiga que estava com ela fazendo compras numa das lojas da cidade.
“Ele continua com o rosto bonito. Está diferente, mais jovem, mas não ficou deformado”, comentou uma estudante com um grupo de amigas numa lanchonete do centro.
As opiniões, entretanto, divergem. Comentários negativos, piadas, gozações em blogs e em colunas de jornalistas de renome “recheiam” as notícias que são geradas pelo ex-deputado e despertam diferentes reações.
A servidora municipal Jocimara Delattre Brandalise encaminhou email à REDE SUL DE NOTICIAS-TRIBUNA criticando uma nota veiculada no site. Ela disse estar “perplexa” e considerou de “mau gosto” a coluna (foi uma nota) com o título “mera coincidência”, que também chamou de artigo. Jocimara é mãe do jovem Daniel Brandalise, condenado a 10 anos de prisão por ter matado por atropelamento o deficiente físico Everson Ferreira da Silva.
Darci Moreira Soares também criticou as notícias. “Inacreditável, tanta coisa interessante para ser escrito…. “, comentou em email.
“Para falar em Deus foi preciso tirar a vida de dois inocentes”, questionou Cleia Tavares numa das várias reações contrárias encaminhadas ao jornal e ao site em questão.
Mas a repercussão maior está sendo “patrocinada” por outra estratégia de marketing que, numa primeira impressão, tenta dar uma nova imagem ao ex-deputado.
Os 20 outdoors espalhados em pontos estratégicos da cidade ao custo de R$ 200,00 cada transmitem uma mensagem de fé. “Agradeço a Deus pela vida e a todos os que estão orando por mim”, é a frase cunhada sobre um azul celestial com nuances de um tom mais profundo. A arte é limpa com as letras na cor branca. Um apelo bem espiritual mesmo.
Mas nem tudo ficou azul a partir dessa mídia, e não dá para dimensionar a repercussão negativa provocada pelos outdoor. Emails, ligações telefônicas, comentários em blogs e em colunas assinadas por jornalistas de renome não chegam nem perto dos comentários que circulam em rodas de conversas na cidade e na capital Curitiba. No site do jornalista Fabio Campana os comentários postados dão um termômetro dessa repercussão.
Na coluna de quinta-feira, dia 9, do jornalista Geraldo Mazza, no jornal Folha de Londrina, ele fez o seguinte comentário na nota Foro de foco: “Ribas Carli não perde a oportunidade de se mostrar mal orientado e isso não apenas nas entrevistas, mas especialmente no outdoor nas ruas de Guarapuava: Agradeço a Deus pela vida e por todos os que estão orando por mim. É a abstração supressiva de qualquer responsabilidade na tragédia”, comenta Mazza.
Uma demonstração de um leitor da Rede Sul, entre tantos outros, sugere uma alteração na mensagem veiculada. “Em nome das pessoas de bem e que ainda acreditam no nosso país, gostaria de sugerir uma pequena mudança nos dizeres do outdoor: agradeço a deus por ter permitido que você sobrevivesse para poder conviver até o último dos seus dias com a morte de dois inocentes na sua consciência. Agradeço a todos que estão orando para que se faça justiça. Agradeço e rogo a Deus para que não permita mais que nenhum irresponsável alcoolizado a 190 km/hora com a carteira suspensa saia por aí assassinando pessoas inocentes”, dispara Leandro Veiga.
Na cidade prevalece a lei do silêncio. Informalmente, as pessoas comentam, mas quando se pede para assumir a declaração recuam sob a justificativa de não querer se expor.
A internet, por e-mail, está sendo a ferramenta utilizada para extravasar posições favoráveis e desfavoráveis. Desde o início dessa triste história se percebe uma rejeição visceral que se traduz no peso das palavras expostas.
Pelas mensagens recebidas chego à conclusão de que às vezes é melhor se manter calado, principalmente quando o exercício da humildade, para alguns, se torna uma tarefa difícil de ser cumprida.
Foto:Nagel Coelho

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