22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

Quando o acolhimento falha, a inclusão vira discurso vazio

Em Guarapuava, o caso vivido por Henrique e seus pais numa loja reacende a discussão sobre acolhimento, preparo e respeito às pessoas autistas

Jovem com espectro autista (Foto: reprodução/ redes sociais)

Guarapuava vive dias de tensão no debate sobre autismo, inclusão e acolhimento. Diante de um contexto que já mobiliza famílias atípicas em Guarapuava, o caso de Henrique adquire um peso que supera o de um simples episódio isolado em um estabelecimento comercial. Ele revela um problema mais profundo: a dificuldade de parte da sociedade em tratar pessoas autistas e famílias com o respeito mínimo que a situação exige.

Segundo relato feito ao blog, Henrique, um jovem com espectro autista, entrou em uma loja acompanhado do cão de apoio. Ele usa crachá de identificação e documentação sobre o cão. Nada disso, porém, foi suficiente para evitar o constrangimento. Vieram os olhares, a abordagem agressiva e a ordem para que ele saísse do local, conforme relatos da mãe do jovem.

O ponto mais grave é o modo como tudo aconteceu. A mãe, Rita, disse que tentou explicar a situação e foi tratada com hostilidade. Houve discussão com funcionárias e com a gerência. Henrique saiu do local e começou a se desestabilizar. O ambiente, que deveria acolher, empurrou. A escuta, que deveria ser imediata, falhou. E a atenção só mudou quando o pai, Gerson, chegou e questionou o gerente sobre o que estava ocorrendo. Só então houve preocupação em ouvir, buscar orientação jurídica e, depois, pedir desculpas.

O RETRATO DO ERRO

Mas esse é justamente o retrato do erro. Respeito não pode depender da chegada de alguém para validar o que a mãe já havia explicado. Acolhimento não pode nascer depois do constrangimento. E empatia não pode aparecer apenas quando se confirma que a família estava amparada pela lei.

O Paraná avança ao ampliar a legislação voltada às pessoas autistas. A Alep reforça direitos, proteção e apoio às famílias, sob a iniciativa da deputada Cristina Silvestri. No papel, o Estado caminha. Na vida real, porém, ainda há quem reaja à diferença com desconfiança, grosseria e despreparo. Esse abismo entre a norma e a prática é o que mais fere.

O caso de Henrique não fala apenas de uma loja de Guarapuava. Fala de uma sociedade que gosta de repetir a palavra inclusão, mas ainda hesita quando precisa praticá-la no cotidiano. E inclusão de verdade não começa na desculpa. Começa no primeiro olhar, na primeira escuta e na capacidade de não transformar uma pessoa autista em problema.

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Cristina Esteche

Jornalista

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