Tem dias em que até a minha indignação pede folga. E olha que ela costuma trabalhar bastante. Depois de tantos embates, discursos inflamados e dessa obsessão coletiva por ter razão, resolvi furar a bolha dos últimos dias. Deixar a toxicidade falando sozinha e tratar de amenidades. Amor, empatia, escolhas... Essas pequenas grandezas que andam fazendo uma falta danada, especialmente entre aqueles que prometem um mundo melhor.
Não abandonei minhas convicções, tampouco perdi a disposição de questionar. Mas confesso que me cansa essa política transformada em devoção, na qual discordar virou ofensa e pensar por conta própria parece um ato de rebeldia. Nunca tive vocação para certezas emprestadas, muito menos para entregar minha consciência a qualquer bandeira.
Gosto de gente que consegue conversar sem consultar cartilhas, discordar sem destilar veneno e reconhecer humanidade em quem pensa diferente. Continuo acreditando que caráter não se mede pela preferência política e que nenhuma ideologia deveria justificar a crueldade. Afinal, empatia só é virtude quando ultrapassa nossas conveniências.
E, falando em escolhas, tenho observado como certas partidas dizem tanto quanto os discursos. Há quem atravesse oceanos por sonhos, oportunidades ou necessidade. Respeito cada trajetória. Quanto a mim, não vejo motivos para buscar tranquilidade sob outro céu. Meu chão continua firme, independentemente dos ventos políticos. E há coisas que nenhum passaporte consegue transportar ou deixar para trás.
Também tenho minhas impaciências e indignações. Não pretendo disfarçá-las. Mas aprendi que nem toda provocação merece resposta e que escolher as batalhas é uma forma de preservar a própria lucidez. Não preciso transformar minhas convicções em espetáculo para demonstrar que as tenho.
Quanto ao amor, sigo acreditando nele. No cuidado, na lealdade, na delicadeza de quem sabe respeitar diferenças. Quero continuar rindo de bobagens, cultivando bons afetos e me emocionando com as coisas simples. Seria uma ironia defender um mundo mais humano e, nessa caminhada, perder a própria humanidade.
Amanhã, certamente, voltarei à política e às críticas. Faz parte de quem sou. Mas hoje escolhi a leveza. Não tenho medo de ficar, nem preciso atravessar fronteiras para encontrar paz. Sei onde estou, o que penso e o que carrego comigo. Porque, no fim, podemos mudar de endereço, de país e até de discurso. Mas não existe distância capaz de nos afastar de nós mesmos. E eu, particularmente, prefiro continuar onde meu coração está em paz e minha consciência não precisa de passagem de ida.