Hoje vamos falar de receitas. Sim, receitas! Mas, antes que alguém imagine uma nova fórmula para resolver os problemas de Guarapuava, aviso: desta vez, o assunto é bem mais saboroso.
Nada de soluções milagrosas ou promessas que crescem mais do que massa de pão. Hoje, os ingredientes são memória, tradição, afeto e história.
Nesta quarta (14), o Instituto Histórico e Geográfico de Guarapuava (IHG) lança Guarapuava à Mesa – Histórias e Sabores, livro que reúne 110 receitas e histórias de famílias. O projeto envolveu mais de mil crianças de 27 escolas municipais, resgatando lembranças transmitidas entre gerações.
E falar de receitas me faz lembrar de um capítulo curioso da história do jornalismo brasileiro.
Houve um tempo em que jornais publicavam receitas culinárias não por interesse gastronômico, mas porque determinadas notícias eram impedidas de chegar aos leitores. Quando uma reportagem saía do cardápio, uma receita ocupava o lugar.
Era a criatividade tentando driblar o silêncio. Afinal, às vezes, aquilo que não se escreve diz muito mais do que as palavras publicadas.
Mas voltemos a Guarapuava.
Nossa cidade também tem as próprias receitas. Algumas atravessam gerações, guardadas nos cadernos das avós. Outras aparecem de tempos em tempos, prometendo novos caminhos. Nem sempre dão certo, mas há quem acredite que basta trocar os ingredientes para acertar o ponto.
Na cozinha, porém, existe uma sabedoria que não se improvisa: é preciso conhecer os ingredientes, respeitar o tempo e saber o que se está fazendo. Uma lição que serviria muito bem para além dos fogões.
O encanto de Guarapuava à Mesa está em valorizar famílias que, longe dos holofotes e das fotografias oficiais, ajudam a construir e preservar a identidade da cidade.
E, em tempos de tantas receitas para o futuro, faz bem conhecer aquelas que deram sabor ao nosso passado. Afinal, algumas receitas alimentam o corpo. Outras preservam a memória. E há aquelas que, em determinados momentos da nossa história, disseram muito mais pelo que escondiam do que pelos ingredientes que revelavam.
Guarapuava à Mesa chega para celebrar histórias que merecem ser contadas, lembradas e compartilhadas. Sem cortes, sem ingredientes omitidos e sem deixar ninguém de fora da mesa.
Porque a memória não combina com silêncio, a história não aceita receita pronta e a liberdade é um ingrediente que jamais deveria faltar.