22/08/2023
Em Alta Esportes

Família Jacinto encontra no enduro equestre uma história de resistência e superação

Theo sofre de uma doença rara (CIDP), ficou paraplégico, mas nunca parou com a equitação; recuperado, ele participa do Enduro neste sábado em Entre Rios

Theo Jacinto (Foto: divulgação)

Quando Theo Jacinto, de Curitiba, sobe em um cavalo e parte para uma trilha de dezenas de quilômetros, o que está em jogo não cabe em uma classificação. Há tempo, distância, cansaço, estratégia e concentração. Mas, para ele e para o pai, o empresário Raphael Jacinto, cada percurso também carrega a dimensão de uma conquista pessoal que começou muito antes da linha de largada.

Theo tem 10 anos, perdeu os movimentos das pernas aos oito após uma doença rara (CIDP). Ele evoluiu rapidamente e hoje encontra no enduro equestre um espaço de autonomia, resistência e confiança.

Theo Jacinto (Foto: divulgação)

A mudança na vida da família aconteceu de forma abrupta. Theo já havia começado a equitação quando adoeceu. De acordo com Raphael, em aproximadamente oito semanas, o quadro da doença, evoluiu até comprometer severamente os movimentos, deixando-o paraplégico. Em meio às incertezas daquele período, o neurologista que acompanhava o menino orientou a família a não interromper a equitação.

Raphael não sabia até onde o filho conseguiria avançar. Mas decidiu preservar aquele vínculo com o cavalo. Foi então que o enduro começou a ganhar outro significado. E hoje o Theo tem os movimentos recuperados e bastante preservados. Para Raphael, a modalidade revelou algo que ia muito além do exercício físico. Durante uma prova, Theo pode permanecer horas montado, atravessando estradas rurais, trilhas, rios e terrenos irregulares. Precisa administrar o próprio desgaste e, ao mesmo tempo, perceber cada reação do animal.

Como pai, fico apreensivo, mas sempre acreditei nessa relação dele com o cavalo.

Aos poucos, ele percebeu mudanças que não aparecem apenas no corpo: persistência, confiança e a satisfação de terminar aquilo que começou.

O ENDURO

Raphael Jacinto também é campeão (Foto: divulgação)

O enduro equestre é um esporte de resistência no qual cavalo e cavaleiro formam uma única equipe. Nas provas de regularidade, geralmente em percursos de até 40 quilômetros, o objetivo é cumprir velocidades e tempos estabelecidos sem submeter o animal a esforço excessivo. Nas distâncias superiores, que podem chegar a 160 quilômetros, há provas de velocidade livre. Mesmo nelas, chegar primeiro não basta.

Durante o percurso, veterinários avaliam hidratação, recuperação cardíaca e condição física do cavalo. Se o animal não estiver em condições adequadas, é retirado da competição. Para Raphael, é justamente aí que está uma das maiores lições que Theo recebe: vencer nunca pode significar ultrapassar o limite do parceiro. Essa cumplicidade aparece de forma ainda mais intensa no caso do menino. Theo precisa perceber a respiração, o comportamento e o cansaço do cavalo enquanto administra as próprias limitações e o desgaste de uma prova longa.

O pai resume a relação como uma troca. Não se trata de alguém simplesmente conduzindo um animal, mas de dois parceiros que precisam encontrar ritmo e confiança.

No enduro a pergunta mais importante não é quem chega antes: é se cavalo e cavaleiro conseguiram chegar bem.

Lucca, campeão mirim (Foto: divulgação)

Os resultados esportivos já mostram o tamanho do caminho percorrido. Theo ocupa a segunda colocação no ranking dos 60 quilômetros e aparece em sétimo nos 40 quilômetros. Cada colocação traz satisfação, mas o pai insiste que o pódio é apenas uma parte da história. Para a família, uma prova concluída representa concentração, preparo, persistência e independência. Ao lado dele está o irmão Lucca, de oito anos, líder do ranking mirim dos 40 quilômetros. A pequena Anna Liz, de dois anos, também já começou as primeiras aulas. Raphael ocupa a primeira posição na categoria dele, 80 quilômetros.

 ESTRUTURA

Por trás de cada prova existe ainda uma estrutura que raramente aparece nas fotografias do pódio. Os cavalos treinam como atletas de longa distância. Há treinador, tratadores, ferrador, veterinário clínico e veterinário esportivo. A alimentação é controlada, os horários são rigorosos e o condicionamento precisa ser acompanhado diariamente. J

osé Willian, proprietário do Will Endurance, treinador da família, construiu experiência em centros de treinamento no Brasil e no exterior, passou por Portugal e competiu em Dubai antes de abrir o próprio espaço em Curitiba. Hoje, acompanha os animais e o desenvolvimento dos três filhos e do próprio Raphael.

Treinador Will (Foto: Reprodução/Instagram /CT Will Endurance)

O esporte também entrou na educação das crianças. Distância, tempo e velocidade viraram exercícios concretos de matemática. A disciplina do treinamento ensina planejamento. O cuidado com o cavalo introduz responsabilidade. E a trilha exige uma maturidade incomum: o cavaleiro precisa controlar a ansiedade, interpretar o animal e saber quando é hora de reduzir o ritmo.

Para Theo, cada uma dessas tarefas ganha uma dimensão particular. O menino que viu a vida mudar em poucas semanas aprendeu a medir as conquistas em quilômetros. Raphael evita transformar a história do filho apenas em uma narrativa sobre limitações. Prefere falar sobre aquilo que Theo construiu depois delas. O drama faz parte da realidade, mas não resume a trajetória.

No cavalo, Theo compete, aprende, calcula, decide e assume responsabilidades. E talvez seja justamente esse o ponto mais importante do enduro para a família Jacinto: o esporte devolveu ao menino espaços em que ele pode ser protagonista das próprias escolhas.

EM ENTRE RIOS

A próxima prova está marcada para este sábado (19) . Theo voltará à trilha no distrito de Entre Rios, em Guarapuava. E ele vem com o mesmo ritual: preparação, concentração e atenção absoluta ao cavalo. No final, pode haver troféu, ranking ou pódio. Mas Raphael já aprendeu a enxergar outra medida de vitória. Para ele, cada vez que o filho completa uma prova, olha para o animal e percebe que ambos chegaram bem, existe ali algo maior que uma medalha.

O cavalo é seu amigo antes de qualquer coisa. Cuide dele.

A frase que Raphael ensina aos filhos resume o esporte e, talvez, também a história de Theo: resistência não é ignorar limites. É conhecê-los, respeitá-los e continuar avançando.

De acordo com Raphael, hoje, Theo está em remissão, vivendo o maior período sem a infusão de imunoglobulina humana, que antes fazia mensalmente.

Para nossa família, isso significa muito mais que tempo: significa esperança. E, como no enduro, aprendemos que algumas das maiores vitórias acontecem passo a passo, com coragem, resistência e a certeza de nunca desistir da chegada.

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Cristina Esteche

Jornalista

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