22/08/2023
Cotidiano Thiago de Oliveira

Feita por humanos

Feita por humanos, como mostra o último quadro de todo episódio, Pluribus foi um grato encontro neste início de 2026

Rhea Seehorn venceu o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática (Foto: Reprodução/Apple TV)

Pluribus, série que se tornou o maior produto da história da Apple TV segundo um dos executivos da plataforma, tem gerado acalorados debates desde sua estreia em novembro. O show, criado por Vince Gilligan (Breaking Bad; Better Call Saul), rendeu o Globo de Ouro a Rhea Seehorn no último domingo.

Li variadas opiniões acerca do enredo após maratonar a série nos últimos três dias. Argumentos que aqui opunham coletivismo e individualismo, acolá egoísmo e altruísmo. Falou-se já em crítica à inteligência artificial, aos Estados Unidos, à colonização, à religião, ao socialismo, ao capitalismo. Vê-se que Pluribus é, no mínimo, interessante.

Em resumo, para você que não viu a série: a Terra recebe um sinal vindo do espaço. É um vírus alienígena que em pouco tempo contamina quase todas as pessoas do planeta com a felicidade. As mentes de bilhões de pessoas se unem a uma colmeia unificadora, que funciona em perfeita sincronia. Paz absoluta. Todos compartilham emoções, pensamentos e habilidades e trabalham em conjunto. Menos treze pessoas, que são imunes. Entre elas está a estadunidense Carol (Rhea Seehorn), escritora de romances de fantasia no Novo México. Pessoa extremamente irritadiça e, como a própria sinopse da série diz, infeliz. Ela é a princípio a única pessoa imune que não se conforma com a nova configuração do mundo.

Carol é o principal ponto de divergência entre os espectadores. Seu temperamento irascível e suas diversas contradições soam em desarranjo inaceitável para quem não consegue conceber a humanidade neste estudo de personagem de Vince Gilligan.

É isso que Pluribus — além dos estonteantes planos abertos na bela Albuquerque de Kim Wexler, Walter White e Saul Goodman — tem de mais especial. Seja ao aproximar e distanciar a protagonista das expectativas do público, seja ao distanciar ou aproximar o público do subtexto.

Há quem ache que a Colmeia é o próximo passo da evolução humana. Ou que o show critica o individualismo americano. Que Gilligan fabula um danoso coletivismo socialista. Ainda que a trama possa remeter a semelhantes interpretações, Pluribus nos dá a oportunidade de não ficar presos em reducionismos do tipo.

IMPERATIVO BIOLÓGICO

Há spoilers

O que eu acho? Os humanos contaminados pelo vírus da “felicidade” não tiveram escolha. Após a união (termo utilizado na série), a Colmeia passa a estudar maneiras de recrutar o restante das pessoas para essa mente única e maravilhosa. Lançam mão de estratagemas sofisticados, como continuar encenando a vida normal de uma aldeia para confortar uma criança peruana no momento da conversão. E logo em seguida, após a jovem se tornar mais uma (ou menos uma?), abandonam a vila e por conseguinte deixam costumes, cultura, língua, modos de viver e até uma pequena cabra de estimação para trás. Ficamos sabendo, a certa altura do show, que a Colmeia não mente (mas esconde), não mata, etc. Porém age com base num imperativo biológico: o de espalhar este vírus universo afora. E para isso estão construindo uma super antena com os recursos da Terra. Por isso precisam do máximo de eficiência possível. Toda a ação coletiva se dedica a esse propósito biológico.

É um mundo que lembra muito o de Alphaville, o filme do Godard de 1965. Nele, um supercomputador controla subjetividades com o fim de eliminar qualquer ameaça ao progresso, seja lá o que for entendido como progresso. O vírus de Pluribus acaba com a possibilidade do novo, do diferente, do indefinido, do imprevisível. A unidade total é a morte em vida. Não à toa, em Pluribus não há mais arte. A história fora aniquilada. Os receptáculos da Colmeia dormem em ginásios para economizar luz para a construção da antena que irá levar a felicidade a outros planetas.

Isso não lembra a você, leitor, a catequização dos indígenas, ou seja, oferecer a eles a salvação e portanto a felicidade eterna? Não lembra também uma forma algorítmica de existir, definida por uma rede que coloniza sua subjetividade? Não se assemelha também à positividade, esse imperativo biológico contemporâneo, disseminado e imposto como vírus no momento em que você scrolla a timeline de uma plataforma arquitetada para mantê-lo ali, passivo e contente? Você quer mesmo fazer parte dessa colmeia ou prefere suster a própria alma, ainda que pesada?

Gilligan pensou nesta série há mais de oito anos, disse em entrevista. Mas o paralelo com a IA generativa é inevitável. Uma quantidade exorbitante de dados é processada para lhe dar a resposta mais satisfatória. Essa mente coletiva unificada que são os LLM (Large Language Model), somada à padronização algorítmica e à colonização das subjetividades, caminha para tornar a autenticidade impossível.

Quando falha, se contradiz, ou seja, essencialmente quando age como humano; quando escreve de maneira torta a própria história; quando come de um jeito diferente; quando é infeliz ou no momento em que se apaixona pelo inimigo; quando, no contato com o outro, abre fendas para o novo, eis aí o momento em que Carol, a protagonista problemática de Gilligan, se transforma em uma ode à humanidade. E quando Manousos — paraguaio que viaja de carro até Carol e é recebido com tiro de escopeta — aprende inglês ouvindo rádio só para falar com a americana! Somente no encontro é que há possibilidades reais. Suprimir o encontro é acabar com a vida, mesmo que o objetivo seja propagá-la.

Essa colmeia, que se impõe à base de um imperativo biológico, é justamente o oposto da ideia de sociedade coletiva que movimentos de fato revolucionários defendem. Numa, há a supressão da humanidade pela dominação totalizante, sem deliberação, sem encontro. Noutra há a mútua colaboração para a livre experiência do devir. A Colmeia é iminentemente suicida porque consumirá todo recurso para levar a cabo o seu objetivo. Feita por humanos, como mostra o último quadro de todo episódio, Pluribus foi um grato encontro neste início de 2026.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. @tdolvr

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