22/08/2023
Blog da Cris Brasil Política

Flávio sobe, mas o ‘Dark Horse’ ameaça virar tempestade

Investigação sobre o financiamento de filme de Jair Bolsonaro aproxima candidato de Daniel Vorcaro. Filipe Barros é o único paranaense na investigação

Flávio Bolsonaro (Foto: Jefferson Rudy/ Agência Senado)

A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) chegou a um daqueles momentos em que a política e a investigação criminal passam a caminhar perigosamente próximas. De um lado, o senador cresceu nas pesquisas e transformou a eleição presidencial numa disputa apertada com Lula. Do outro, documentos agora públicos colocam o nome dele diretamente no centro das apurações sobre o financiamento de ‘Dark Horse’. Aquele filme dedicado à trajetória de Jair Bolsonaro.

A informação mais relevante dos últimos dias não é simplesmente que Flávio aparece citado no caso. Mas de que ele encontra-se formalmente investigado em inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, desde julho. A Polícia Federal apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos relacionados ao financiamento da produção cinematográfica. Investigação, é preciso registrar, não significa culpa ou condenação.

O que aumentou o peso político do episódio encontra-se na divulgação dos documentos da investigação. De acordo com a PF, Flávio atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, nas negociações para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro, o pai. Investigadores identificaram cobranças de pagamentos, reuniões e mensagens entre os dois. O projeto previa aproximadamente US$ 24 milhões, dos quais ao menos US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente movimentados. E o deputado federal e candidato ao Senador, Filipe Barros é o único paranaense nesse emaranhado.

FLÁVIO DIZ QUE TUDO É LEGAL

É aqui que a história deixa de ser apenas cinematográfica. Vorcaro está preso e responde a investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A relação de um candidato à Presidência com um empresário nessa situação exige explicações muito mais detalhadas. Não basta, portanto, a simples afirmação de que se tratava de “dinheiro privado para um filme privado”.

Flávio nega irregularidades. Chamou uma das operações policiais envolvendo a produção de “fajuta”. Atribuiu as investigações a uma tentativa de interferência eleitoral e diz desejar transparência total porque, conforme ele, tudo ocorreu legalmente. A defesa política é legítima. Mas a acusação de perseguição não substitui uma resposta objetiva sobre origem, percurso e destino de dezenas de milhões de reais.

SITUAÇÃO FICA AIS DELICADA

A situação ficou mais delicada porque existe uma segunda frente de investigação relacionada ao filme. Uma operação autorizada pelo ministro Flávio Dino apura a possível utilização de recursos públicos e movimentações financeiras envolvendo a produtora, entidades e o deputado Mário Frias. A PF investiga, entre outros pontos, se recursos originados de emendas parlamentares chegaram à produção. Essa operação não deve ser confundida com o inquérito no qual Flávio é investigado, embora as duas apurações convirjam sobre o financiamento de ‘Dark Horse’.

Há ainda outro ingrediente explosivo: a investigação aponta Eduardo Bolsonaro e pessoas próximas a ele na estrutura utilizada para movimentar recursos nos Estados Unidos. A PF procura esclarecer quem efetivamente recebeu o dinheiro, como os valores circularam e se parte deles teve finalidade diferente da produção cinematográfica. São perguntas ainda abertas e, exatamente por isso, merecem investigação, não sentença antecipada.

Politicamente, Flávio chega a essa crise numa posição paradoxalmente forte. O Datafolha divulgado na sexta (11) mostra Lula com 39% e Flávio com 35% no primeiro turno. No segundo, os dois aparecem tecnicamente empatados: 46% a 44%. Ambos também registram rejeição de 46%.

Mas há um detalhe fundamental: os entrevistadores do Datafolha terminaram a coleta antes de vir a público antes da investigação de Flávio o no caso ‘Dark Horse’ e antes da divulgação de parte dos documentos. Portanto, a pesquisa ainda não mede o eventual impacto das novas revelações. O verdadeiro teste eleitoral dessa crise aparecerá nos próximos levantamentos.

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Cristina Esteche

Jornalista

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